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GATA VELHA AINDA MIA...

  
 Acabo de ouvir esta expressão de uma xará, a famosa Regina Duarte, lançando o seu mais recente filme, e imediatamente acendeu uma luz dentro de mim, levando-me a pensar no quanto precisei miar forte em minha vida para sobreviver aos ataques de inúmeras naturezas.
Miei de dor, miei de alegria, miei de prazer, de espanto e frustração, miei para afastar perigos, miei por todo o tempo, mas na realidade, miei para me preservar e poder viver e, portanto, continuo miando para espanto de muita gente, porque, afinal, por ser uma gata velha, de um modo geral, as pessoas não esperam ouvir miados, quando muito, apenas de dor.
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Claro que apenas estou fazendo uma analogia, por que na verdade, não me permiti ser soterrada, alijada ou qualquer outra forma de travamento, porque privilegiei executar  todos os planos que me dediquei elaborar, sonhar, desejar, seja lá o nome que se queira dar, e por sentir medo, miava, e por me sentir insegura, miava, e por acreditar que merecia participar da luta e não apenas ser uma espectadora, miava.
Portanto, meus miados eram minhas armas de luta e, em cada uma delas, fui aprendendo tons e intensidades diferenciadas, o que de certa forma se constituiu em uma blindagem que foi me conferindo certo poder interior que ampliava, concomitantemente, o meu atrevimento frente ao exterior que em muitos momentos foi confuso e assustador.
Sobrevivente diante deste computador, escrevendo sobre meus miados, penso que sou de uma geração de mulheres que precisou miar muito e forte para se manter íntegra de atitudes e de ideais, pois cresci e me desenvolvi em meio ao turbilhão de renovações posturais dos anos 60 e 70, sem que houvesse, como não há agora, tempo para maior assimilação, restando-nos tão somente as bases familiares como referências que, por sua vez, também em sua maioria se encontrava perdida, tal qual novamente constato nos dias atuais, onde por todo o tempo surgem mais e mais novas informações, novos conceitos, tornando tudo muito confuso e levando-nos, então, a miar e a miar, num constante apelo de socorro existencial.
Concluo neste instante que até o fim miarei, e quando as forças  podarem os sons de minha garganta, estes, ainda assim, se expressarão através do meu olhar iluminado e da paz do meu sorriso.


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