quinta-feira, 18 de outubro de 2012

ESQUISITA... TALVEZ.



Dentre todas as atribuições que as circunstâncias, ou a minha plena vontade, determinaram, certamente, o ficar sozinha, apenas com os meus pássaros, minhas plantas com suas preciosas energias e, é claro, meus benditos pensares, foram as minhas preferidas atividades.

Quando garota, e mesmo adolescente, fui alvo de gozações familiares e estranhamentos por parte de alguns vizinhos e mesmo coleguinhas que não compreendiam como eu, saudável, repleta de energias, em dado momento do dia, isolava-me, buscando no silêncio, minha preciosa distração e quando, finalmente, comecei a escrever e a colocar em palavras as delícias de meus momentos, bem... aí, verdadeiramente, arranquei enormes críticas, pois tias e primos e até mesmo minha mãe, viam em meu comportamento um enorme perigo eminente, pois, afinal, eu estava ficando, a cada dia, mais e mais parecida com tia Hilda, e parecer-se com ela, no início dos anos sessenta, era o mesmo que colocar-me no patamar das mulheres livres, que a sociedade, mesmo carioca, ainda não estava devidamente pronta para aceitar de forma natural.

E eu, mais tarde, percebi que fui perseguida de modo cruel pela ignorância de uma época e de um sistema hipócrita que fez de mim, por anos a fio, uma jovem perdida em si mesma, tentando e sistematicamente fracassando em disfarçar uma espontaneidade que me era absolutamente natural.

Por incrível que possa parecer, a minha constante busca de isolamento, fez com que eu desenvolvesse uma perfeita sintonia com o natural, e nesses momentos não havia censuras, frescuras ou qualquer outra situação que pudesse macular a harmonia daquele entrosamento entre a minha natureza energética e o todo no qual de forma simples, mas envolvente, eu me via e me sentia inserida.

No entanto, foi em Guapimirim (cidade serrana próxima ao Rio de Janeiro), justo em uma das casas de campo da família, e no caso, da própria tia Hilda, que pude com clareza definir em mim a escolha pela grandiosidade do simples, pela beleza das cores da natureza, pelos ruídos do silêncio que, ainda hoje, tantas décadas depois, preenchem meus instantes, fazendo de mim, não mais uma pessoa confusa, mas uma criatura que sabe exatamente o que lhe dá prazer.

E prazer para mim é estar permanentemente interagindo com este mundo de sons e imagens que fazem de meu imaginário um ininterrupto criador de situações surpreendentes, todas, geralmente, extraídas do aparente quase nada que me cerca, quando  na também aparente solidão, sou livre para tão somente sentir e, então, o comum do cotidiano recebe de mim o meu melhor que é a bendita compreensão em relação a certeza absoluta de que nada mudarei que não seja através de minha forma de ser e de me inserir neste contexto permanente de querer e buscar ter, que a mim, não quer dizer absolutamente nada.

 

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