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Deus tarda, mas não falta!



Esta frase consoladora, se bem observada, leva-nos a pensar no quanto Deus com seus costumeiros atrasos é capaz de deixar populações inteiras absolutamente abandonadas à própria sorte, enquanto uma reduzida parcela da raça humana esbalda-se.

Leva-nos também a refletir no quanto de refrãos imaginários somos capazes de repetir sem que haja qualquer correlação com a realidade presente, além de servirem única e exclusivamente como muletas vivenciais, onde verdadeiramente não reside qualquer conteúdo, seja regenerador ou educador que nos direcione a uma caminhada existencial mais lúcida e coerente com a grandiosidade da vida.

Penso então que é exatamente neste ponto que nós criaturinhas humanas nos atemos, pois quem, afinal, deseja qualquer relação mais íntima com a realidade?

Buscamos o lúdico, o que transcende com insistência em nosso cotidiano, exatamente porque somos, na maioria das vezes, incapazes de aceitar nossas realidades, fazendo então do etéreo, nosso amparo existencial.

Do ilógico, fazemos o nosso folclore pessoal, até porque, há muito percebemos que dá certo, que marca ponto e atrai adeptos.

Infeliz de nós que mergulharmos nossas cabeças nas poças dos mistérios de quaisquer naturezas que fujam à realidade, porque, aí sim, transformamo-nos em fantasmas existenciais, vagando sem qualquer relação mais íntima com toda uma grandeza de sentidos e sentimentos que são capazes de nos levar ao mais doloroso dos desesperos, assim como nos faz vibrar, amar e nos deliciar com tudo o mais de bom e agradável que formos capazes de extrair desta experiência fantástica, emocionante e real de nos sentirmos vivendo.

Ao pensar no Deus que tarda, lembro-me da miséria, da fome, do flagelo humano.

Ao pensar que ele não falta, reconheço-me como uma covarde e maldosa criatura que se esconde no irreal, camuflando a culpa pessoal de não saber fazer nada prático, para suprir o medo e a dor que assola grande parte da minha própria humanidade.

Humanidade esta, que ainda tem que admitir, não ser capaz de fazer seja lá o que for para esconder a vergonha de conviver bem de pertinho com o que se tornou feio, pobre e esquecido, justo porque Deus em seu costumeiro atraso deixou faltar isto, aquilo ou praticamente tudo, abrindo lacunas indeléveis nas existências desgraçadas de muitos dos meus pares existenciais e no meu cotidiano de criatura enfraquecida, perdida e desesperada, que busca o alento das retóricas costumeiras, para se sentir forte, saudável, solidária...

Pensando em tudo isto e muito mais, despeço-me neste instante sem o Deus, porque, afinal, ele está atrasado, mas com a esperança de que em algum momento, ele chegue, trazendo-me o alívio para esta minha covardia em usar seu nome com toda a autonomia de quem sabe das coisas, mas não faz coisa alguma.

Regina Carvalho – 11-10-2012

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