quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Democracia Participativa.

Sempre existiram momentos, como o de agora, em que sinceramente encontro dificuldades para iniciar minhas escritas, confundindo-me, pois as palavras ao invés de estarem fugindo de minha mente, ao contrário, apresentam-se em tão rápida profusão que ordená-las torna-se difícil, fazendo ao mesmo tempo eu me sentir lenta com meus dedos junto ao teclado, pois sinto-os meio que endurecidos.

Não é novidade para mim toda essa reação física e emocional, entretanto, sempre me surpreendo, porque junto a ela sinto um profundo entusiasmo, que com a continuidade ao longo dos anos agregou, também, um desânimo camuflado, mas doído.

Percebo que isso só acontece quando me dou ao direito de enxergar algo, ou alguém e até a mim mesma, tal como se apresenta, isento de qualquer colorido camuflativo.

Ontem, fui fazer a cobertura jornalística da 1ª Conferência Intermunicipal de Cultura dos municípios de Itaparica e Vera Cruz, que sediou o evento em sua biblioteca.
E mais uma vez, pude constatar o quanto estes eventos, que deveriam ser de suma importância, se perdem em seu contexto maior, exatamente porque ficam engessados em posturas repetitivas e absolutamente não adequadas às realidades de suas necessidades aplicativas.

Tudo é uma questão de prioridade e o que percebo é uma troca de valores quanto às avaliações, a começar pelos próprios gestores, que não visualizam a necessidade em ofereçer a determinados
assuntos a devida atenção e sequer comparecem, como se o que fosse ser tratado não merecesse ajustes em suas agendas.

A meu ver, nada pode ser mais importante para um gestor que acompanhar de perto os assuntos determinantes ao desenvolvimento de seu município, inclusive, e principalmente, porque a ele seria oferecido a oportunidade de ouvir pessoas que não fazem parte de sua equipe de trabalho, mas que estão no dia-a-dia do outro lado, como se diz, da mesa, vivenciando in loco e, portanto, todo este manancial poderia por ele ser filtrado e certamente aplicado em novas posturas que viessem a ter o perfil de uma gestão inovadora e progressista.

Entretanto, o que se vê é um quase pouco caso, onde assuntos importantíssimos são tratados como detalhes menores e eu, pelos anos de experiência no trato dos mesmos, creio sinceramente que isto ocorra porque os senhores gestores, demais secretários e assessores diretos não saibam avaliar, e tão pouco correlacionar, as suas próprias atribuições, novamente acreditando que isto aconteça pela força brutal do banalismo que nos assola sorrateiramente, desviando-nos cuelmente de nossos objetivos prioritários, direcionando-nos a outros valores em um "me engana que eu gosto ou necessito".

Não sei bem se me faço compreender, vamos lá....

De que adianta pessoas pensarem em propostas culturais se as mesmas se perderão no fundo das gavetas até o próximo encontro no ano que vem, quando novamente ouvir-se-á a mesma ladainha com quase nada acrescentado?

Pessimismo?

Não, apenas uma constatação desagradável que explica em quase todos os aspectos todo o desequilíbrio social em que nos encontramos.

Como pode ser possível, pensar em desenvolvimento ou revitalização cultural sem que se avalie em primeiro lugar a existência postural da educação como núcleo agregador e proliferador básico de tamanha envergadura?

Como pensar em criar espaços ou qualquer outro tipo de projeto, se ainda é problema abastecer as escolas com o apoio complementar de uma merenda sustentável ao desenvolvimento físico e mental de qualquer criança e adolescente.

Isto sim, é utopia e me revolta, porque sei e você também sabe que poderia ser diferente e aí, frente a esta realidade que me parece tão absurda, sobram-me palavras de protesto e falta-me até ânimo para expressá-las, porque afinal os anos de experiência também me alertam de que mais uma vez estou perdendo um tempo precioso, chamando a atenção do óbvio que quase ninguém opta em querer enxergar, o que dirá mudar, e novamente, sinto e vivencio o "me engana que eu gosto", tão comum a cada instante.

Não é fácil, e o consolo é que não estou sozinha nesta batalha cidadã, reconhecendo, contudo, que nos expomos aos revanchismos egocêntricos e, talvez, por esta razão, estejamos sempre fora de qualquer cargo público, porque afinal, por mais amigo que nos sintamos de um gestor, reservamos a nossa fidelidade apenas e tão somente aos interesses de nosso município .

Somos eternos excluídos, porque somos os chatos de plantão, repletos de boas idéias que chamam de utopias filosóficas, mas totalmente aplicáveis pois com sucesso deixaram de ser apenas idéias para se tornarem grandes realizações em outras paragens, onde o espírito inovador e a vontade voluntária de realmente fazer acontecer, foi a pretensão maior.

E aí, se nos dão a oportunidade, na ocasião, de algo falar, que sejamos breves, pois o trem fantasma precisa continuar andando e, sem qualquer cerimônia, somos interrompidos, nos fazendo crer que o que falamos está fora do contexto do "me engana que eu gosto".

É... tudo muito interessante, sério e importante, de verdade, pra quêm?

Ah! Será que na ocasião em que os entusiasmados e bem intencionados delegados escolhidos a ir nos representar em Salvador, receberão passagens e alimentação ou como em outras inúmeras ocasiões ainda terão de mendigar ou enfiar a mão no próprio bolso?

Entendem a extensão do que quero dizer, quando falo em banalização, pouco caso e não entendimento do que sejam prioridades?

Esta não é uma crítica vazia, ou o que é pior, movida a interesses partidários. É tão somente mais um grito de socorro de um alguém que adora esta ilha e só deseja oferecer sua pequena parcela de amor, respeito e solidariedade, acreditando a cada instante que só pode sentir-se em uma democracia se puder ser participante.

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