sexta-feira, 10 de julho de 2009

Espelho Cruel

São cinco horas da manhã, já estou escrevendo e como de costume nada planejo, deixando a mente limpa enquanto espero a água ferver para preparar um café que, certamente, me estimulará neste começo de dia.


Entre a sala e a cozinha, sou obrigada a atravessar um corredor onde tenho um espelho na parede, e querendo ou não me vejo refletida.


Esta rotina, até então, havia passado sem qualquer importância maior, entretanto, há alguns instantes, parei e me olhei observando que o tempo produz estragos para nós, criaturas tão apegadas à beleza estética.
E aí, também como de costume, a mente imediatamente recomeçou sua mais apreciada função, que é justo, pensar.
E pensando no quanto envelheci, consolo-me dizendo a mim mesma que ainda estou simpática, se bem que para uma mulher este argumento não é lá muito generoso. E aí, penso que envelhecer pode, de repente, não ser assim nenhuma tragédia se ainda se está saudavelmente repleto de energias, o que não tenho visto com frequência nos jovens que, envolvidos com a internet, permanecem com seus traseiros estaticamente acomodados em cadeiras enquanto suas cabecinhas também se paralizam nas salas de bate-papo, limitando suas potencialidades a um nível de impotência existencial quase que total. Contudo, ainda assim são jovens, se bem que muitos já perdidos pela falta de raciocínio lógico, em reconhecerem que viver é bem mais que ficar diante de uma tela, seja lá fazendo o que for.

Todavia, voltando à velhice que constatei , mesmo não desejando, penso que estou me sentindo muito bem. Afinal, levando em conta que estamos no OCIDENTE, onde aos quarenta anos já se é considerado velho e dificilmente se consegue um trabalho oficial, e onde os mais jovens já te olham com aquele ar de paciência e tolerância típicos da total falta de compreensão de que o passar do tempo é chegado à todos, creio que sou uma excessão, talvez porque eu trate o meu envelhecimento com respeito, não abusando dos mais jovens com a minha indiscutível experiência de quase 60 anos de vida.

Penso que não pode haver nada mais intolerável para um jovem que ser lembrado a todo momento por uma pessoa mais velha que ele nada sabe, justamente por ser jovem. E como nós, claro, os mais velhos repetimos esse drástico erro, afastamos de nós os nossos jovens, sempre lindas criaturas desabrochando por todo o tempo no recolhimento pessoal de suas próprias experiências de vida, que certamente novas visões acrescentam às nossa bagagens de velhos sábios.
E reforço, então, o meu entendimento quanto ao não meu sofrimento frente à minha incontestável velhice. Afinal, me permitiram cometer erros, volta e meia quebrei, como dizem, a cara, mas jamais ultrapassei os limites das margens das orientações que recebi e que também tive a sensibilidade em colher dos mais velhos enquanto jovem.
E por todo o tempo, somos mais jovens que alguém, não é mesmo?
Todo este lero-lero que minha mente vai produzindo, provavelmente é responsável por eu, apesar de constatar que envelheci, não estar deprimida ou, o que é pior, querendo camuflar o que as evidências impôem.

Entretanto, recuso-me a me atestar velhice. Qual nada, digo a mim mesma que há sempre algo novo que se torna velho se não somos capazes de reciclar uma a uma das nossas emoções.
E aí, penso que mesmo assim estou ficando cada dia mais velha e que o meu tempo por aqui neste planeta terra está se esvaindo, e eu gosto tanto de vivenciá-lo e isto, cá pra nós, é uma tremenda sacanagem. Por esta razão, que para mim é fundamental, doravante fecharei os olhos ao passar pelo espelho, dando uma banana pro óbvio refletido que insistente fica me lembrando o que eu sinceramente não tenho qualquer intenção de dobrar-me à indução apenas de uma imagem a cada instante em detrimento de todo um contexto que como uma pessoa eu represento, tá certo, concordo que mais velha, mas e daí ?!

O que eu quero mesmo é viver, o resto são detalhes que deixo para os que se consideram velhos ou eternos jovens, refletirem. Bom Dia!!!!!
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