Quem comigo convive sabe o quanto tenho pavor de elevadores, jamais adentrando em algum sozinha e, mesmo acompanhada, confesso que tudo em mim paralisa, até mesmo a respiração. E aí, cruz credo...
Tudo por conta de uma cena que presenciei aos 10 anos com um grupo de outras crianças no hall térreo do prédio da tia Helena, lá no bairro Humaitá, no Rio de Janeiro, quando uma senhora grávida faleceu diante de nossos olhos, justo por causa das portas que se fecharam indevidamente e lhe quebraram o pescoço.
Dali em diante, quando preciso usar, entro e saio em disparada, sem jamais ter conseguido superar o trauma. Pois é, hoje acordei saindo apressada de um elevador, depois de passar um enorme susto, já que ele se desgovernou, descendo sem freios direto ao poço.
No sonho, estava acompanhada do meu Roberto e de dois outros homens, num silêncio assustador. O que o fez parar não me lembro, mas com certeza, até o momento, ainda ouço o seu barulho raspando as paredes, provocando um zunido constante em meus ouvidos.
Então, tento disfarçar tomando o meu pingado e escrevendo a respeito deste que não me pareceu um sonho, mas sim, um pesadelo que me acompanhou desde a noite de ontem, em que, assistindo ao Fantástico na Rede Globo, resolvi desligar e ir dormir, na tentativa de me livrar minha mente da incerteza e do indisfarçável medo que vêm me acompanhando nos últimos tempos. Tento, através de uma firme e inabalável fé, acreditar que em algum momento, como num pesadelo, vou acordar e, comigo, toda uma nação.
Tudo se tornou tão surreal, fora de controle e fantasioso que, mesmo isolando-me, ainda sou atingida pelos efeitos de uma era em que nada mais parece ser verdadeiro, além do aparente convencimento que a mídia insistente oferece, disfarçando, confundindo e até justificando sublimemente o injustificável, assim validando ou defendendo algo de forma perfeita, extraordinária, até que esta se torne uma verdade para ser odiada ou venerada. O mais aterrorizador é que, como o pesadelo do elevador, a queda é brusca e só irá parar quando ao poço chegar. E, assim como nele, o poço nunca chega, restando a submissão ao medo, a sensação de insegurança e uma enorme fé de que, em algum momento, ele há de parar.
Penso, então, no quanto já não podemos acreditar em verdadeiramente nada, pois o véu espesso do engano, do imediatismo, dos ganhos fáceis e da total falta de escrúpulos, como um descomunal polvo com fortes e poderosos tentáculos a tudo alcança e aprisiona, transformando a liberdade em utopia e a dignidade pessoal em item enganador de ocasião.
Em quem ou no que acreditar, se por todos os lados as falsas verdade e as ciladas estão no comando, garantindo que o show precisa continuar?
Ainda bem que me fiz escrevinhadora, capaz de reconhecer e projetar o feio, o bruto e o miserável, fazendo das teclas e das canetas poderosas pás que reviram as terras dos absurdos em busca do tesouro da salvação, onde poderei encontrar o sorriso franco, a palavra digna e tudo mais que seja justo, nobre e, acima de tudo, verdadeiro.
Regina Carvalho, 14 de setembro de 2026 – Pedras Grandes, SC.
Ilustração- IA
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