segunda-feira, 7 de setembro de 2026

E AGORA, REGINA?

Neste amanhecer (em que, cruz credo, mais uma vez estou pagando em vida tudinho de errado que porventura tenha feito), tenho de conviver com este frio que, pelo menos para mim, faz doer os ossos. 

Cá estou esperando milagres de um aquecedor para, como de costume, apenas escrever. E aí, enquanto resignada aceito meu destino friorento, regozijo-me com um pingado bem quentinho e com algumas lembranças que, na realidade, nada mais são que um processo cognitivo íntimo de entendimento pessoal.


Entre uma e outra lembrança, penso na poesia "José", do poeta Carlos Drummond de Andrade, e, em seguida, no prazer que sempre permeou a minha existência: ter tido a possibilidade de absorver as revelações íntimas, deslumbrantemente disfarçadas, dos escritores sobre suas emoções em relação à existência humana. Como faço até hoje, leio-os atentamente, tentando mergulhar na mente de quem os escreveu. Crio cenas possíveis de serem encaixadas, usando tão somente a criatividade desta minha mente teatral, mas, inevitavelmente, comparo-as com a minha irreverente visão, buscando semelhanças nos sentimentos envolvidos e nas reações deles frente aos cotidianos nada fáceis de serem vividos.

Penso, então, nas radionovelas de ontem e nas telenovelas de hoje, nas peças teatrais e em qualquer outro movimento cênico que sempre atraiu um sem-número de pessoas, compreendendo, finalmente, que cada personagem exibido ocupa um espaço e se assemelha à realidade de quem o assiste. 

Portanto, mais que distrair e relaxar depois de um dia árduo, tais instantes podem representar o que somos, o que já fomos e o que desejamos ser.Todavia, é na escrita sem sons ou qualquer firula envolvida, na solidão de quem escreve, que se torna possível uma maior interação entre o outro e nós. 

É ela que descortina a mais primária semelhança no absolutamente diferente, tornando-nos não só mais generosos em relação aos outros, mas, principalmente, conosco.Afinal, todos os humanos, desde os primórdios, só buscam realizar seja lá o que for que lhes traga aquela deliciosa satisfação que faz desabrochar o mais íntimo prazer. 

Penso, então: quem nunca se sentiu como Drummond em um certo momento?

"Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,

Sem teogonia,

Sem parede nua

Para se encostar,

Sem cavalo preto

Que fuja a galope,

Você marcha, José!

José, para onde?"

Regina Carvalho 07/09/2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração- IA

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