Pois é. Ontem, enquanto retornava das compras, cansada e já de pijama, segurava nos braços meu netinho amado. Foi olhando para ele que me vi capaz de, por meio de seus olhos angelicais, enxergar claramente as palavras: talento e vocação.
Imediatamente me vi ainda garota, envolta num lençol, gesticulando por sobre o sofá da sala ao declamar "O Navio Negreiro", de Castro Alves, tendo como plateia meus pais.
Numa sequência de lembranças emocionais, lá estava eu, sentadinha no meu quarto da Barão da Torre, numa tarde qualquer. Tinha diante de mim um caderno, uma borracha e um lápis e, ao meu lado, como rica companhia, uma vitrola.
Eu ouvia a letra cantada da música e a adaptava com versos do meu próprio entendimento; assim, criava uma nova composição. Naquela época, ainda no início da adolescência, jamais pensei tratar-se de um dom natural, e esse hábito estendeu-se por longos anos.
O choro esfomeado do meu Marcelinho trouxe-me de volta à realidade. No entanto, neste amanhecer, lá estavam as palavras novamente passeando pela minha mente. Resolvi, definitivamente, compreender o porquê da minha recusa em estudar artes dramáticas, optando pelo ofício da escrita, em especial as crônicas. Visto que nelas eu poderia, assim como fazia com as letras das músicas, colocar a minha visão pessoal. Pronto, questão finalmente esclarecida.
Eu tinha talento para subir nos palcos e representar grandes autores, pois o talento é a facilidade natural para realizar uma atividade com alta habilidade. Enquanto isso, a vocação é uma inclinação profunda que exige dedicação continuada e muita disciplina. Juntas, seja lá em que área for, podem apresentar desempenhos surpreendentes.
Sem imaginar ou premeditar, como dispunha dos dois dons, fundi-os, a fim de não criar choques de interesses. Foi assim que a Regininha utilizou o talento de artista no cotidiano para deixar sobreviver a escrevinhadora apaixonada, vocação que garantiu uma existência plena.
Por isso, os mais próximos em algumas ocasiões se admiravam, e alguns jamais entenderam. Poucos, graças a Deus, tentaram com todas as suas forças, fazê-la largar tudo e simplesmente desaparecer. Afinal, pensavam: qual idiota seria capaz de sentir-se forte, resistente e sorrindo feliz em meio ao caos, que muitas vezes foi uma enorme pedra em seu caminho?
Eles jamais poderiam imaginar que a intérprete usava incansavelmente os famosos “cacos autorais” para dar o brilho necessário à cena do momento, assim como tenazmente escrevia, deixando escoar a dor num misto de persistência e esperança.
E agora, enquanto escrevo, lembro-me de uma estrofe escrita em 1916 por Ricardo Reis, heterônimo de Fernando Pessoa, que diz:
"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias."
Regina Carvalho- 5.9.2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração- IA
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