Parece frase motivacional de uma aprendiz de filósofa, a fim de convencer a si própria de que tudo pode ser simplesmente maravilhoso, sem qualquer chaga vivencial que a atinja. De certa forma o é, porque, afinal, cada pessoa é dona dos seus pensamentos, guia perpétua de sua mente, mesmo que ela seja atrevida, irreverente, nostálgica e teatral como a minha.
Este insight ocorreu em minha vida quando eu era ainda uma garota de 15 anos, em tempos idos, onde se podia saborear cada fase da vida sem imediatismos. Por que ocorreu? Sei lá.
De repente, o fato de eu ser uma observadora dos movimentos de todas as naturezas, inclusive da própria expressão cotidiana dos fenômenos naturais da vida, pode ter colaborado para que esta, mesmo apresentando alguns atropelos, me parecesse bela.E aí, a escolha entre vivenciar o fascinante belo ou permanecer em meio aos atropelos, deixando-os contaminar minhas posturas, fossem físicas ou emocionais, sempre prevaleceu.
Nem que para tanto eu precisasse fazer o maior salseiro, comumente chamado de birra, teimosia e o escambau, ou o que aconteceu comigo, que era ser denominada de louca, já que, nos idos dos anos sessenta e setenta, a psicologia tornou-se moda nos meios abastados no enfrentamento das rebeldias.
Pois é... Aí pensei: louca, mas fazendo exatamente o que quero e não o que o meu entorno exige, já que os exemplos à minha volta eram absolutamente dúbios, hipócritas e formadores de véus que escondiam as realidades. Então, se estou me sentindo bem, seguindo a coerência do pensar e do agir, o que mais pode ser importante?
Minha mãe foi fundamental neste rumo que dei às minhas escolhas, já que, mesmo criticando meus arroubos, no fundo, hoje eu sei, libertava-se um pouco também. Claro que, quando se é um jovem adolescente, não há, e a neurociência explica, capacidade para se mensurar consequências. Mas, nesta época, eu desconhecia esta realidade e, por intuição, segui em frente, guardando em mim valores que me foram repassados pelos meus pais, mas repletos de ressalvas.
Afinal, a cabeça da Regininha registrava, mas, pela força do hábito de uma infância naturalista e rica de emoções (culpa deles e de uma tia espiritualista), sabia sensitivamente que minha essência precisaria ser preservada a qualquer custo, desde que este não tirasse a minha capacidade de enxergar a beleza da vida, mesmo estando em meio ao caos.
Hoje, pensando nisso, percebo o quanto aprimorei meu senso de limites, jamais desafiando o sistema, mas basicamente a mim mesma. O quanto me respeitei colocando freios amorosos nos meus ímpetos, estudando-os incansavelmente, numa avaliação contínua e primorosa. E aí, sem sequer perceber, fui polindo a minha mente em relação às minhas condutas, não culpando nem uma nem outra e muito menos a terceiros, mas explodindo em regozijos quando digo: amo você!
Então, que vida rica, meu Deus! Penso que, se morresse no instante seguinte a este texto, meu mais correto epitáfio deveria ser: aqui jaz alguém que achou a vida bela. Mas, como desejo ser cremada, minhas cinzas boiarão no espaço aberto do mar de preferência o de Itaparica, deixando resquícios do pó de mim mesma, numa integração sem limites com a paixão, sentimento vivo que me fez companhia, mesmo em meio ao caos.
Concluo que, nesta vida, precisamos acima de tudo ser o que somos, razão única para existirmos amando-a, já que qualquer forma de amor precisa, antes de tudo, da autenticidade que este sistema podador insiste em sufocar.
Regina Carvalho- 9.9. 2026 Pedras Grandes SC
Ilustração IA
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