sábado, 27 de maio de 2017

CHOVE LÁ FORA


A noite está chegando devagarinho, reforçando o frio gostoso que dominou por todo o dia deste sábado de outono e eu, particularmente adoro, pois me lembro dos muitos invernos que vivi nas Minas Gerais.
Dos muitos caldos verdes, dos chocolates quentes e das pipocas diante dos filmes que alugávamos nas locadoras. Parece que foi ontem, mas lá se vão quinze anos.
Também nos dias frios, aproveitei para estudar e pensar e acabei viciada nas análises dos comportamentos humanos, fontes contínuas de inspirações, fazendo de mim, uma contumaz observadora que se dinheiro não me rendeu, pelo menos me ofereceu parâmetros de profundos aprendizados.
E aí, para não perder o hábito, fico pensando na incoerência dos comportamentos humanos que sempre me surpreendem, pois, abusada, permeia as atitudes minhas e de todos que já conheci in loco ou através das literaturas, filmes e de uns anos para cá de forma diárias nas redes sociais.
São tão óbvias que chegam a assustar...
Tão visivelmente alimentadas pela vaidade...
Tão contagiosamente viciantes que se tornam difíceis de serem evitadas.
Todavia, o pior é que se torna embrutecedora, pois contamina a autocrítica com o véu sutil da negação da realidade, criando uma humanidade esquizofrênica que enxerga apenas o que lhe convém, numa fantasiosa encenação de realidade sob os aplausos de outros tantos no mesmo estágio de alienação existencial.
E entre um arrepio e outro, sinto até um pouquinho de medo, afinal, se enxergo a hipocrisia fantasiada de ostentação ou é porque estou louca ou com uma profunda inveja por não conseguir vivenciar os meus dias cercada do brilho da estupidez humana de se sentir uma merda coberta do ouro dos tolos.
Não tem sido fácil este mergulho nas aguas profundas de mim mesma, pois comigo como companheira inseparável, vai também o meu cotidiano, insistente em seus vícios e mazelas.
E quanto mais do fundo me aproximo, mais repugnância vou sentindo das falsas aguas claras com as quais convivi por todos esses longos anos, quando a verdadeira luz só seria possível de encontrar nas profundezas ricas e fartas de meu interior.
E quanto mais fundo, mais luz vou encontrando, numa apaixonante incoerência que tal como a outra, vicia, mas pelo menos, liberta.

Chove lá fora e faz frio também, mas mesmo sem chocolate, caldo verde ou cobertor, me sinto aquecida por dentro.

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