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CHOVE LÁ FORA

Acordei e chovia lá fora e, no entanto, o pássaro assobiador não poupava seu fôlego até a pouco, quando comecei a escrever.
Não saberia identificá-lo, assim como não identifico qualquer outro, pois jamais me preocupei em saber seus nomes e até mesmo querer tocá-los, bastando-me tão somente ouví-los.
E como os ouço em suas algazarras matinais ou nos solos absurdamente únicos e especiais com os quais faço parcerias na produção de meus escritos.
Agora, enquanto escrevo sobre eles, penso em nós, criaturinhas confusas e irritantemente teimosas, às vezes incapazes de pequenos atos generosos, outras vezes, tornamo-nos cascatas de pura doação e, então, fico me perguntando por que não somos como os pássaros que abrem espaço uns para os outros e, juntos, são capazes de produzirem grandes espetáculos para nós que, se sensíveis formos às suas presenças, certamente nos inebriaremos, fazendo deles nossos mestres cantantes que, afinal, nos ensinarão pausas, tempo e harmonia.
Chove lá fora e eles ainda cantam, fazendo pano de fundo ao meu despertar deste domingo de novembro, onde, confesso, a preguiça me domina até mesmo para continuar a escrever, coisa que mais gosto de fazer, depois, é claro, de beijar na boca e viver em paz.

Para você que me lê, também sentindo preguiça, um generoso beijo, totalmente adocicado por esta natureza que me seduz, me encanta e me torna feliz.

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