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O SABIÁ



O sabiá afoito chama a minha atenção e instantaneamente olho através da janela, na busca insana de poder enxerga-lo entre as infinitas folhas verdes e os emaranhados de galhos que serpenteiam as copas das arvores que filtram a chuva fina neste começo de manhã de terça-feira, que particularmente espero que seja repleta de luz.

Respiro fundo como de hábito, espreguiço o corpo e sinto um leve arrepio que me faz lembrar que o inverno chegou, mesmo que de mansinho, mesmo que acanhado, diante do sol ardente que, poderoso, não cede o seu lugar, induzindo-me ainda a crer que o  verão permanece, nem que seja na impressão gostosa de sua intrometida, mas bem feita presença em partes do dia.

Enquanto analiso este quase duelo entre o sol abusado e a tímida chuva, reparo que o sabiá cantador não está solitário nesta sua cantoria, pois noto a presença de canários sopranos e de outros cantadores que não distingo quais são.

Penso, então, que não estou sozinha neste meu acordar bem cedinho, pois logo encontrei  no sabiá, companhia assim como para nós  apareceram  mil pássaros cantando a vida, semeando a terra, trazendo a luz de um novo amanhecer.

Lembro-me das acerolas temporãs que de junto da porta da cozinha, salpicam o pátio, como se fossem contas coloridas que se contrastam com o azul do céu, desafiando-me por todo o tempo a esquecer do tudo lá fora, nublando-me a razão, levando-me a crer e a sentir com certeza incontestável, que o paraíso que busco lá fora, está bem aqui, do lado de dentro.

Uma terça-feira de paz com um paraíso dentro de cada um de vocês.

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