Amanhece lentamente neste meu novo cantinho encantado. Tendo à minha frente a tela do notebook, a opção seguinte é descortinar o verde bendito desta natureza exuberante, esculpida pelo mestre maior do universo, minha principal fonte de inspiração.
Quem me lê, pode até imaginar o jardim de uma daquelas belas mansões existentes pelo mundo, criada por mãos paisagistas talentosas. Na realidade, tudo aqui é ricamente rústico, resultando na mais sábia e pura diversificação de convivência, onde cada espécie se harmoniza ao restante, criando um cenário único.
É nesta paz de diferentes tons e formas que a minha atenção, assim como a dos pássaros, se concentra. Cada qual sorve para si as seivas que nos alimentarão ao longo de mais este privilégio que é estar viva.
No meu caso, em especial, essa contemplação também extrai e enriquece a minha sensibilidade quanto à constatação da minha própria vulnerabilidade. Penso, então, nos dois últimos dias em que nada escrevi ou publiquei. Estive acamada ao ponto de precisar ir a uma clínica para um reforço médico, já que meus frágeis pulmões renderam-se em estafa total pelo excesso de esforço diante deste frio que, certamente, não é para principiantes, ainda mais para quem vem de uma Bahia ensolarada.
Portanto, nesta manhã em que, devidamente medicada, já encontro forças para escrever, penso em Deus e no quanto Ele sempre foi generoso para comigo. Ofereceu-me uma estrutura física resistente e dois filhos amorosos que deixaram suas vidas em pausa para, até este momento, cuidarem de mim, trazendo segurança em forma de amor.
E aí brotam lembranças de quando passei pela mesma situação em Itaparica, tendo meus filhos a quase três mil quilômetros de distância. Ainda assim, pude contar com um grupo fabuloso e diversificado de amigos que me apoiaram dia e noite, até que finalmente eu me recuperasse.Penso, então, que nestas horas só o dinheiro não basta, se bem que ele é necessário. Mas tê-lo sem a presença do calor humano é algo que não posso mensurar, por jamais ter me faltado.
Como uma ferrenha humanista, acabo sempre como uma feroz crítica dos movimentos políticos. Posso avaliá-los com precisão por ter convivido de perto com eles durante anos a fio, principalmente nos últimos trinta anos, quando a corrupção tirou a sua máscara e passou a mostrar o monstro cruel que é. Ela mina as famílias, os hábitos, os costumes e as instituições, arrastando para o esgoto os valores cristãos e aproveitando-se das brechas deixadas por uma sociedade frágil que se acostumara a viver à espera de milagres e salvadores.
E quem cruza os braços e por eles espera, certamente os encontra, mesmo que em forma de migalhas, em detrimento de um básico que lhes garanta no mínimo a dignidade de não precisar desta maldita regulação hospitalar. Os furtos que as mídias mostram incessantemente seriam suficientes para construir uma unidade hospitalar em cada cidade deste país varonil, sem esquecer das creches, escolas e universidades de qualidade.
Sem esta volumosa maldita corrupção, sobraria recursos para se ampliar, inclusive, o mercado de trabalho, a fim de que os cidadãos pudessem pudessem receber de acordo com suas meritórias habilidades, ao invés de romantizarem o empreendedorismo, que é saudável se estruturado, mas não nesta absurda necessidade existencial que, na maioria das vezes, frustra ainda mais quem a ele recorre. Afinal, além dos abusivos impostos embutidos em cada quilo de qualquer alimento e no tudo mais, ainda jogam sobre a cabeça de cada cidadão a responsabilidade total e irrestrita de sua manutenção, sem qualquer real amparo que o sustente.
Olho para este cenário bendito à minha frente e lembro de uma infância e adolescência onde nem tudo era perfeito, mas repleto de certezas de onde estávamos e do que verdadeiramente dispúnhamos. Minha família era de classe média real, e não fantasiosa como a que inventaram. Estudei por toda a vida em excelentes colégios públicos, onde eram servidos alimentos, e tínhamos atendimento de dentista e médico. Havia também as policlínicas que atendiam tanto as pequenas emergências quanto os partos e cirurgias de baixa complexidade como a que fiz das amígdalas, sem que minha mãe precisasse dormir ao relento para conseguir um atendimento.
Portanto, poupe-me de argumentações e amostragens de benefícios esdrúxulos que tapeiam, mas estão a anos-luz de representarem evolução social e consistente amparo ao cidadão.
Vou parar por aqui, pois bem sei que, dentre as alterações comportamentais, raros são aqueles que, já habituados com a instantaneidade das fotos e manchetes, dispõem de tempo ou mesmo paciência para ler e compreender longos textos.
Regina Carvalho – 25.5.2026 Pedras Grandes, SC
Ilustração- IA

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