Sou tão obstinada em conhecer os labirintos comportamentais das pessoas nas convivências que insisto até o meu limite pessoal para entendê-los. Claro que, a partir dos meus próprios labirintos, às vezes, confesso, saio não surpreendida, pois há muito passei deste estágio, mas sinceramente ainda decepcionada. Afinal, ainda reservo um manancial de esperanças nesta humanidade poderosa que desconhece o potencial existente em si mesma.
Já produzi tantos relatos de constatações empíricas ao longo de minha vida, os quais vaidosamente chamo de livros, mas que na realidade são tão somente registros. Faço-os na esperança de que, em algum momento, sejam lidos e, quem sabe, o ideal que teci para a minha vida seja estímulo para a jornada de outros.
Neles poder-se-á encontrar mais que teorias filosóficas como as de tantos autores em que me embasei, mas apenas testemunhos pessoais de uma mulher apaixonada pela vida. Sou uma observadora contumaz que jamais desistiu de compreender as incoerências a que cada criatura humana se expõe, descaracterizando-se em sua esmagadora maioria.
E assim, o ser humano atrai para si uma avalanche de contrassensos, paradoxos e ilogicidades que o levam a uma profunda desconexão da realidade dos fatos, consequentemente gerando ações e reações que se enquadram perfeitamente nas suas esdrúxulas visões sobre qualquer coisa.
Penso então, neste amanhecer que agradavelmente não se apresenta tão gelado como nos dias anteriores, que, antes mesmo de saber a definição do que fosse lógica, lá estava eu questionando quando o comportamento de uma pessoa entrava em conflito com os valores que ela mesma defendia. Inclusive eu mesma, levando-me, bem mais tarde, a deduzir que se tratava de posturas oportunistas disfarçadas de inúmeros adjetivos, como conveniência e até mesmo educação, abrindo fendas profundas por onde tudo o que há de ruim e agressivo encontra espaço para se desenvolver.
Essa dedução, na ocasião para uma simples garotinha, certamente pela confusão que criou, despertou na precoce náufraga emocional a necessidade de sobrevivência. Isso a levou a buscar tenazmente, em braçadas livres, as areias da praia do entendimento.
Portanto, se hoje nado e na praia ainda não cheguei, pelo menos aprendi a controlar o compasso entre as braçadas e a respiração. Evitei, assim, o inevitável cansaço que, pela lógica que acabei compreendendo, impediu-me de fenecer em infinitos momentos desta minha determinada forma de existir.
Esse texto dedico a Tereza Valadares, de Itaparica, que sempre se mostrou tal qual a sua essência, mesmo não sendo devidamente compreendida. Com sua franqueza e liberdade de ser e agir, ela sempre foi um doloroso espelho para a negação de muitos, inclusive de mim, que, por um bom tempo, não gostei de enxergar nela a originalidade postural que eu ainda não conseguira alcançar sem perder a doçura, a generosidade e o senso de participação coletiva que a caracterizavam.
Esse texto é um tributo a uma mulher que até podem classificar como meio louca, escandalosa, irreverente, falsa e outros adjetivos menos elegantes, como o fez um tal bandido usurpador, nacionalmente conhecido pelo roubo ao erário público, há poucos dias, fato que ela me contou sinceramente magoada.
Estendo a ela a minha solidariedade, pois conheço esse tipo de decepção. Aproveito para agradecer a sua grandeza em ter sido a única pessoa que se dispôs a sair de sua rotina para ir ao Fórum de Itaparica esclarecer a respeito do processo que respondo, trazendo-me, assim, um enorme alívio.
Itaparica, dentre tantos tesouros que reserva em si, com certeza é bem mais rica com a sua presença ativa na defesa não só dos direitos de um povo constantemente violado, mas na manutenção da lógica de si mesma.
Obrigada de coração.
Regina Carvalho 27.05.2026 – Pedras Grandes, SC

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