De repente acordei sem qualquer maior inspiração, até que assisti a um vídeo no Facebook que continha uma historinha aparentemente tola, bem ao meu gosto de romântica inveterada, e que fez brotar em mim inúmeras lembranças: “Eu te julguei pela capa.”
Imediatamente, minhas lembranças voaram serpenteando sem rumo, indo de lá para acolá, buscando provavelmente as que fossem mais relevantes, aquelas que definitivamente me ensinaram o quanto nós, pessoinhas lindas e completas, também podemos ser bobinhas, vaidosas e preconceituosas.
Lembrei-me de certa tarde, em 1978, em que adentrou pelo escritório da Tele-Savassi em BH, aquele homem grande, negro e todo sujo de graxa, que carregava um saco de padaria enganchado em um dos braços. Ele chamou a minha atenção, assim como a dos meus dois colegas de trabalho, por ser uma figura inusitada naquele cenário; afinal, era uma empresa luxuosa e carpetada de um bairro chique de Belo Horizonte naquela época.
Passaram-se alguns segundos e, vendo que os demais não se dispunham a recebê-lo, eu o fiz. E acreditem: ali estava o representante pela manutenção de uma das concessionárias de automóveis mais conhecidas da cidade.
Resumindo, aquele saco de papel guardava uma pequena fortuna, cuja comissão pela compra de seis linhas telefônicas garantiu o meu sustento por um mês inteirinho, além de pontos de prestígio junto aos patrões. De quebra, ganhei um fiel investidor que me acompanhou por longos anos.
Naquela época, mesmo sendo jovem, eu sabia bem o que era ser desprestigiada justo por não exibir meus conhecimentos. Por um instante, coloquei-me no lugar dele, num estalar empático que, ao longo da vida, poucos tiveram para comigo. Afinal, a Regininha, sempre tão transparente, com mania de escrever poesias, meio maluquete por estar na maioria das vezes disponível, ostentando boa vontade e um sorriso irreverentemente aberto, jamais poderia possuir um conteúdo suficientemente qualificado para esta ou aquela função, pois criam que me faltassem títulos, cargos importantes ou postura de vencedora.
Pois é... No fundo, a minha casca sempre foi singela, mesmo perfumada e arrumadinha, mas totalmente incapaz de ostentar e, assim, quem sabia se mostrar levava sempre a melhor.
Será? Esta foi a pergunta que me fiz a vida inteira, recebendo sempre a mesma resposta, já que a vida tem uma forma muito peculiar de demonstrar suas argumentações.
No meu caso, incansavelmente blindou-me com uma força estranha sempre presente, não me deixando esquecer das pessoas e situações incríveis que me ensinaram a ser o que fui elaborando em mim.
Pois é... Meu macacão sempre foi o da simplicidade, mesmo quando vestia roupas de marcas. Meus ganhos sempre estiveram atrelados às minhas necessidades e meus lucros, títulos e cargos ficaram por conta da minha satisfação continuada em viver cercada da autenticidade amorosa a vida inteira.
E aí, mesmo sem casca nada me faltou e o melhor sempre se aproximou, estivesse eu em qualquer condição e onde fosse. Afinal, é impossível contar as muitas vezes em que fui agraciada com a empatia, principalmente de desconhecidos, incansáveis e surpreendentes pessoas que, na hora “H”, apareciam aparentemente do nada para demonstrarem o quanto neste mundo ainda existiam olhos capazes de expandir respeito e consequente atenção, abrindo espaço para que eu pudesse mostrar a pessoa e a qualificação que, timidamente, residiam em mim.
Hoje, relembrando o Sr. João, aquele mecânico todo sujo de graxa, olho ao redor e sorrio pensando no quanto aprendi com estas maravilhosas pessoas. Então, levanto-me por instantes, abro a cortina e, diante de mim, a natureza se exibe esplendorosa. Porque, afinal, ela é autenticamente natural, havendo sempre olhos para apreciá-la.
Regina Carvalho (20/05/2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração -IA

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