terça-feira, 19 de maio de 2026

FECHANDO A CONTA

Detesto matemática e nela me enrolo toda. No entanto, quando dela precisei para fechar as minhas contas emocionais diárias, por incrível que possa parecer, poucos erros cometi. Penso, então, que o mérito se deveu ao meu encantamento pela vida, ao meu apego ao descanso mental e à imensa preguiça em carregar os fardos pesados que a infelicidade produzisse.

Penso que, na realidade, foi exatamente o meu egoísmo que me ajudou a fechar direitinho minhas contas, já que eu só precisava usar a adição e a subtração, ficando com o saldo que me trouxesse o mínimo de paz e o máximo de prazer.


Aprendi a somar com critério tudo de bom que me acontecia e, com o mesmo rigor, tudo quanto de mal me feria. Assim, contabilizava os prós e os contras diários, resultando, felizmente, em saldos positivos para mim, mesmo que para a matemática alheia eu estivesse errada.

Para começar, descobri na minha dislexia de leitura pessoal que, ao trocar números por emoções, as operações seriam, se não mais fáceis, com certeza mais produtivas. E aí, bem aí, acreditem que por menor que o saldo se apresentasse, lá estava a Regininha sorrindo, fechando os olhos e adormecendo a cada final de dia em absoluta paz, mesmo estando num vermelho contábil que enlouqueceria qualquer primário matemático.

Na minha visão matemática de muitos e variados números, percebi, ainda muito criança, que, ao substituí-los por emoções, sentidos e lógica, e oferecendo a eles parcelas intermediárias de percepções, esperança e fé, os mesmos ficariam mais robustos a fim de serem avaliados. 

Então, o produto do saldo, mesmo que aparentemente menor, seria sempre compensador. Afinal, seria o saldo amoroso que descobri, encantada, ser o caminho mais seguro para acumular valores que fossem impossíveis de me serem roubados, ou que eu mesma pudesse dilapidar com os possíveis excessos cabíveis a qualquer pessoa inserida num mundo onde o vício do materialismo é o "comandante de qualquer operação".

Descobri, vivenciando meus caminhos matemáticos esdrúxulos diante das expertises que se apresentavam, que não poderia existir uma fórmula matemática mais prática e eficiente. Afinal, minha conta pessoal jamais deixou de fechar, já que, mesmo pau a pau, havia sempre algo a receber, o que, mesmo na minha ignorância contábil, trazia como compensação aquela certeza de que logo o azul bendito chegaria e, com certeza, a conta seria em algum momento fechada.

Pois é. Dois mais dois são quatro, sem qualquer discussão, mas se na lousa não houver o "nove fora" do medo, da angústia, da tristeza ou da solidão, cada operação vira tortura que adoece o corpo, corrompe a mente e obscurece a alma, fazendo com que, mesmo absolutamente certinha e enriquecedora, a conta não feche.

Regina Carvalho – 19.5.2026 – Pedras Grandes, SC

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