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SÁBADO DE ALELUIA


Silêncio quase total, se não fosse o arranhar constante da vassoura do Zé, no quintal do vizinho.
Nada, absolutamente nada, mais parece existir além das árvores que, sem brisas, permanecem estáticas, como se ao invés de reais tão somente fossem parte de uma pintura em tela gigantesca.
Fixo o olhar com o auxílio do óculos esperando ver um pássaro, uma brisa e até mesmo o retorno do sol que, desde cedo, vai e vem, numa indecisão que já dura horas.
Também estou com dúvidas, pois não sei se vou aguar as mudas que plantei ontem.
E se chover? E se não chover?
Acho que vou esperar mais um pouco...
Enquanto espero, escrevo, enquanto escrevo, me delicio com a formação que sou capaz de fazer com as letrinhas, não sem lamentar não ser capaz ainda de formatar uma história, um conto, para fazer de mim uma escritora, tal qual outros a quem admiro.
Mas não consigo, focando apenas no registro da vida que meus sentidos ariscos encaminham à minha mente e esta, agitada e vaidosa, faz questão de expressar no agrupamento de letras, formando palavras que se transformam em relatos, como por exemplo: na chegada do sol, que inundou o jardim, mas que talvez por pirraça ou molecagem comigo, já se foi, antes mesmo de deixar -me descrevê-lo por completo.
Parece até que não tenho mais nada para fazer, neste sábado de aleluia, além de perseguir o sol neste vai e vem em meu jardim.
Bem, ter eu tenho, mas pode existir algo mais urgente e sério que apreciar a vida, fazendo dela parceira nestes momentos de imensa cumplicidade?
Talvez tenha para outros, não para mim, e lá vem ele outra vez, e com ele veio também uma certa brisa que, finalmente, fez balançar os galhos mais finos da mangueira e as hastes longilíneas da amoreira.
O arrastar da vassoura do Zé foi substituído pelos cantos dos pássaros que, finalmente, chegaram, quebrando o total silêncio e me fazendo acordar deste quase transe em que me permito a cada amanhecer.
Penso então na Semana Santa, na Páscoa e no meu Jesus, que comigo convive o ano inteiro, neste colóquio diário de vida e liberdade, numa troca de equilíbrio, razão e amor.
                                                                              Regina Carvalho – abril/2015.


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