quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Palheta e Caneta

Em 1998, ao reduzir a velocidade do carro em determinado quebra molas, um garoto com a mão estendida e nela contendo um saquinho, perguntou-me:

- E ai, minha avó, vai hoje umas jabuticabas fresquinhas?

Chocada, parei mais adiante no acostamento e imediatamente olhei-me no espelhinho do quebra sol e acredito ter ficado ali, estática, me observando por um longo tempo.

Deus! Pensei. Envelheci e nem percebi!

Hoje, passados 13 anos, constato que vêz por outra me lembro deste episódio e que em todas as vezes, busco um espelho que esteja mais próximo, pois preciso constatar o quanto, apesar de ter envelhecido ainda mais, estou me sentindo ótima.

Consolo?

Talvez um pouco, mas com certeza uma forma que encontrei de não ser mais surpreendida e, atenta, ir acompanhando mais carinhosamente o meu envelhecimento e, assim, cuidar para que seja saudável e que retrate, mais que rugas, mas acima de tudo, o meu interior, ainda repleto de vida, sem idade definida, sem estereótipo que o mascare.

Lembro-me que ao chegar em casa, escrevi o que considero, provavelmente, umas das minhas melhores crônicas. Confesso que no início da escrita, deixei rolar algumas lágrimas silenciosas, afinal aquela surpreendente revelação atingiu-me de cheio o ego fazendo-me acordar do sono da indiferença que eu, e qualquer pessoa, pode nutrir, até mesmo por proteção pessoal, frente à experiência limite de estar se aproximando da morte, com a qual nos sentimos impotentes.

Portanto, alienar-se com o passar do tempo é o mesmo que paralisar na mente este mesmo tempo, não enxergando o óbvio e o absolutamente natural.

Quanto a morte, silenciosa, companheira que me acompanha desde o nascimento, fiz um trato amigável. Que me leve, quando chegar minha hora, mas enquanto isto não ocorrer, vou eu fazendo a minha hora, olhando-me no espelho e focando felicíssima aquela jovem sonhadora que se reflete e que tem muito ainda por realizar.

Contudo, cá entre nós, afinal, envelhecer ainda assim é uma merda, e aí, só nos resta colorir.

Não é mesmo?

Esperta e artista, conservo a palheta, as tintas e os pinceis, fazendo dos dias sucessivas aquarelas, e com a caneta e o papel, fazendo da morte mil poemas.

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