sábado, 31 de outubro de 2026

CIRCO DOS HORRORES - Capítulo 2

Neste amanhecer nublado e friorento de um outono absolutamente esquisito, pelo menos para mim, cá estou buscando palavras que possam expressar a minha intolerância ao sofrimento, seja ele qual for. Não se trata de negá-lo, mas de não o aceitar, mantendo-o bem longe de mim. Percebi bem cedo que ser feliz é muito mais agradável, embora nada fácil, pois a felicidade alheia incomoda, gera inveja e, se bobear, mata.

Ainda assim, manter-me feliz me trazia um conjunto de sensações harmoniosas que imaginei ser a paz, principalmente após enfrentar as intermináveis dificuldades que o ato de viver apresenta. Como se não bastasse, há os obstáculos que nós, preciosos humanos, incansavelmente criamos, sei lá por quê. Algo inexplicável e ininteligível ao meu entendimento, talvez pelo fato de a vida ter me sido apresentada como um espetáculo a céu aberto.


Mesmo assim, o safado e incansável sofrimento nunca me deixou sozinha. Fez questão de caminhar ao meu lado, tentando-me a sucumbir. Confesso que, em algumas situações, quase afundei no lodo da sua presença, mas, tão logo ele se distraía, lá estava a Regininha se levantando e nadando para qualquer lado seco e limpo. Ali, nunca faltaram os jardins floridos da esperança, cultivados com a ajuda socorrista das borboletas e dos sabiás. O processo cansava, doía e deixava marcas, com certeza; por outro lado, regenerava o que estava quebrado, sarava as dúvidas e abria frestas benditas em minha mente e alma, por onde novas esperanças podiam me alcançar.

E assim, fechando mais um outubro turbulento devido ao furdúncio das eleições, neste circo com aparência e estrutura de intermináveis horrores, onde jamais me furtei de apresentar fielmente as minhas convicções, cá estou sorrindo. Ao contrário de me sentir frustrada pelas espetaculares derrotas, sorrio porque estou viva e já me imagino na próxima batalha que, quem sabe, será a minha redenção.

Enfim, o que afirmo categoricamente é que nada é definitivo e tudo, em algum momento, há de mudar. Se isso não acontecer enquanto eu estiver viva e atuante, pelo menos saberei que tentei e, principalmente, vivi, colocando nesta tarefa todas as minhas forças, intenções e amor.

Afinal, pode haver nesta vida algo mais prazeroso, depois de uma longa luta, do que se olhar no espelho e gostar do que se vê? Olhar para o algoz sem ódio ou frustração, reconhecendo que, embora numa batalha exista sempre apenas um vencedor, eu não me rendi. Mesmo derrotada, mesmo derrapando e caindo, eu nunca desisti.

E pode haver pior derrota para um vencedor do que constatar que o seu derrotado não ficou morto no chão?

O ditado popular já diz que não há nada como um dia atrás do outro, pois não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe. Mesmo no picadeiro do circo dos horrores em que a nossa nação se apresenta, haverá sempre uma fresta na lona por onde o sol da esperança poderá passar.

Simples assim.

Regina Carvalho - 31.10.2026 - Pedras Grandes, SC

Ilustração- IA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

CIRCO DOS HORRORES - Capítulo 2

Neste amanhecer nublado e friorento de um outono absolutamente esquisito, pelo menos para mim, cá estou buscando palavras que possam express...