Passei a minha vida inteira ouvindo esse absurdo sendo dito e, confesso, isso me incomodava enormemente desde que comecei a discernir o certo do errado, assim como a compreender as dubiedades que dominavam as mentes e as posturas, inclusive do meu pai. Homem honrado, mas também picado pelo mosquito transmissor do vírus da incoerência.
Exemplo: fumava, mas condenava quem fumasse. Como se a ele fosse dado o escape do fumo e, para tanto, não lhe faltavam argumentos, principalmente para mim, que o questionava enquanto ele trazia, sempre entre os dedos, um cigarro. Fui compreender este absurdo pessoal já adentrando na terceira idade, já que, até então, não havia associado o cigarro à minha própria saúde.
Talvez por essa razão, em dado momento, passei a observar com mais atenção e empenho os comportamentos a partir de mim. Foi então que percebi ser quase impossível permanecer fiel, antes de tudo, ao que verdadeiramente acreditava, sem que essa fidelidade acarretasse um contêiner de atrapalhações em meio ao convívio com os demais.
Também por isso, a leitura dos contextos filosóficos me atraiu e fascinou. Afinal, os pensadores foram criaturas que dedicaram suas vidas, e alguns inclusive as perderam, justamente por serem fiéis aos seus entendimentos existenciais. Eles perceberam que esses entendimentos iam muito além do gostar ou não disto ou daquilo; pois, eram determinantes quanto à responsabilidade individual pelo continuísmo das distorções que facilmente se proliferavam, criando e mantendo no topo das infinitas carências as falácias como verdades em suas narrativas palanqueiras.
No campo político, essa sempre foi uma norma nas posturas de seus personagens. De tão convincentes, tornaram-se bandeiras que os pouco observadores, os ingênuos ou os safados e cúmplices trazem para si e defendem. Se necessário, ofendem, ferem, matam e até morrem.
Olhando apenas o cenário brasileiro, já que não me sinto capacitada para ir além, acredito que ficamos muito mal representados. Falta-nos, principalmente, ver na prática cotidiana os efeitos como por exemplo da Pátria Educadora, promessa que até então, se apresentou apenas através da construção de unidades educacionais desprovidas de qualidade pedagógica e funcional, mas bem estruturadas nas áreas disciplinares das ideologias disto ou daquilo.
E aí, evoluir em quê, sem qualificação educacional?
Pensando bem, é o mesmo que calçar uma avenida sem que nela seja colocada a rede de esgoto ou a vazão das águas pluviais. Pensam eles que o que o olho não vê, o coração não sente, mas rende votos e isso é tudo o que importa, até a próxima chuva, quando fazem alguns remendos e o povo volta a ficar feliz. Pensamos nós que, afinal, ele rouba, mas arruma, colore e musicaliza a cidade em datas culturais, os municípios, os estados e o país, e o que é ainda melhor, mantém-nos confiantes num futuro que nunca chega, mas nos faz sonhar.
E aí, penso: Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come...
Portanto insisto que: Transformar a ética e a coerência em disciplinas obrigatórias desde a educação infantil é o caminho mais bonito, eficiente e urgente para mudar o rumo do nosso país.
Regina Carvalho, 21.10.2026, Pedras Grandes, SC.
Nenhum comentário:
Postar um comentário