quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PREGUIÇA TROPICALIENTE

Que cidadã eu seria se, além de manter os braços cruzados por conveniência disfarçada de impotência, ainda permanecesse de boca fechada, o que, felizmente, ainda não aconteceu diante dos fatos escabrosos que se repetem ano após ano e escancaram o povo mequetrefe que nós, brasileiros, somos?

Como posso me considerar decente e honrada se defendo, aplaudo e até agrido quem ousa discordar da minha admiração quase devoção por políticos, juízes e forças armadas que toleram horrores cotidianos enquanto, usufruem privilégios inaceitáveis num país onde falta o essencial?


Como podem ser chamados de honrados os dirigentes que aprovam para si salários astronómicos e, com a mesma caneta, impõem ao trabalhador um salário mínimo que nem em sonho sustenta uma família?

E nós?

Que povo alienado somos, que aplaude o próprio caos?

Não conseguimos associar os roubos descarados do erário em todas as instâncias administrativas com à ausência de hospitais, merendas escolares, saneamento básico, medicamentos e segurança. Falta tudo. Mas sobra desculpas e muitas verbas carnavalescas o ano inteiro.

Direita.

Esquerda.

Centrão.

A ideologia muda. O privilégio permanece.

A cada geração, perdemos a capacidade de distinguir o certo do errado, o bem do mal. Não por falta de informação, mas por excesso de conveniência. A ignorância já não é ausência de acesso; é escolha confortável.

Quando penso nisso, despida de bandeiras partidárias, confesso: envergonho-me. Não apenas dos governantes, mas de nós. Porque o silêncio também vota. E o oportunismo é o maior partido do Brasil.

País liberto?

Democracia plena?

Fome erradicada?

Educação ampliada?

Direitos garantidos?

Chamam de progresso.

Eu chamo de sobrevivência precária.

Vivemos um “samba de crioulo doido” institucionalizado, onde todos opinam sobre tudo, mas poucos assumem responsabilidade por qualquer coisa. Quem enxerga é rotulado de radical. Quem questiona é desbocado. Quem grita é louco.

Pois que me chamem de velha louca.

Prefiro a insanidade lúcida ao silêncio cúmplice.

Desde que o mundo é mundo, quem tem um olho é rei. E quem não tem cão caça com o gato. Mas nós, tropicalientes preguiçosos mentais e éticos, naufragados na própria apatia, vivemos no lixo acreditando estar no luxo, distraídos, hipnotizados, entretidos com trios elétricos, bundas e BBBs.

Não há corrupção sem plateia.

Não há abuso sem tolerância.

Não há tirania sem espectadores.

Enquanto elegermos o reflexo do nosso próprio oportunismo, nada mudará.

Porque o problema não está apenas no poder.

Está na mentalidade que o legitima.

Se indignar virou loucura, então que me falte juízo, mas nunca consciência.

Confesso que neste instante, sinto-me exausta, confessando como dizem os baianos: Acordei virada na porra...

Regina Carvalho

26.02.2026

Pedras Grandes – SC

Nenhum comentário:

Postar um comentário