A impressão que tenho é a de que ouço e vejo tudo o que acontece aqui e ao redor do mundo por meio dos meios de comunicação; no entanto, desconheço quase tudo, se não tudo, já que minha mente não consegue processar o volume dos acontecimentos, dando-me a falsa impressão de que sou uma pessoa bem informada. Assim, deixo de avaliar e de desenvolver meu senso crítico.
Não é apenas o volume, mas principalmente a anestesiante repetição sistemática dos noticiários televisivos, além das infinitas postagens nas redes sociais, onde cada pessoa, crendo-se possuidora de elevados recursos intelectuais e morais, copia e reverbera esta ou aquela opinião sobre um fato que mais se coadunou com sua capacidade avaliativa e ponto. Chegam até a ficar famosas. Levando-me a pensar: mas e daí?
Os problemas sociais e culturais se misturam e ecoam como barbaridades e geralmente o são, todavia, longe de serem novidades pontuais. A mídia e a alienação assim os transformam, levando-nos a esquecer e talvez até desconhecer que, em sua maioria, são inerentes ao “ser humano” e, portanto, de certa forma, explicam a crescente barbárie e o abandono do Estado em relação às realidades que, infelizmente, estão presentes nas calçadas e atrás de cada porta fechada, aos olhos de cada um de nós.
Presumimos que somos “os tais”, mesmo desconsiderando a lógica de que somos animais com um único diferencial: a capacidade de raciocínio e tudo quanto de sentimentos e emoções dela desabrocha. Criamos leis, condutas politicamente corretas, seguimos tendências modernistas e supostamente evolutivas, e nos esquecemos, em curto período, senão de aplicá-las, ao menos de questioná-las com base em nossos próprios raciocínios, mesmo tendo uma infinidade de informações que, a priori, deveriam ser ricos insumos.
Friso o caso do “caramelo” porque ele se tornou símbolo da nossa comoção seletiva. O “caramelo” virou herói nacional porque não nos acusa. Ele sofre em silêncio e nos permite posar de salvadores. Enquanto isso, ignoramos as violências que praticamos diariamente contra pessoas, contra a natureza, contra nós mesmos. O problema nunca foi o cão abandonado; é o ser humano que abandona e depois compartilha indignação como se ela fosse virtude.
Tudo é muito comovente e real, tal qual todas as barbáries que aplaudimos por ideologia ou mesmo por estupidez, e que proporcionam uma não menos real e contumaz repetição comportamental.
Penso, então, que tudo é importante e que leis precisam existir como forma efetiva de punição. Todavia, se não iniciarmos rapidamente uma reforma de base educacional nas escolas, aliada a uma não menos necessária inserção coletiva de bom senso, baseada tão somente na lógica do bem individual em favor do bem comum, em breve conheceremos os efeitos da barbárie que nem blindados, cercas elétricas, grades residenciais e penitenciárias, assim como leis e armamentos, serão capazes de conter.
Afinal, o que vemos em nossas ruas, bairros, cidades e país como um todo tem sido apenas uma amostra do que animais racionais são capazes de produzir.
Vivemos a assustadora era do “precário julgando o esfarrapado”...
Até a sábia natureza já não suporta mais e devolve, a cada dia, mais violentamente, o horror que lhe impingimos. E nós, as maravilhas do universo, sequer freamos nossos ímpetos psicopáticos, ferindo suas vísceras com nossa ignorância, incapazes de deduzir, ainda que primariamente que, ao destruí-la, destruímos a nós mesmos.
Lembro, então, da afirmativa do saudoso e sonhador Gonzaguinha, na música É:
“A gente não está com a bunda exposta na janela, pra passar a mão nela...”
Será que não?
Regina Carvalho
26.2.2026 – Pedras Grandes – SC

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