Estou aqui desde cedinho, antes mesmo de o dia clarear e eu poder enxergar a neblina tomando lentamente a paisagem, pensando sobre o que escrever. Afinal, tenho dois temas na minha cabeça, sem conseguir escolher apenas um para desenvolver.
Depois de receber duas lindas mensagens de pessoas absolutamente diferentes em tudo, pelo WhatsApp, compreendi que os dois temas se misturam e se completam, apesar de serem antagonistas. Afinal, como diz a retórica popular: a vida e o ser humano são assim.
Essa incompatibilidade fundamental entre ideias, pessoas, forças, poder, condições sociais etc., que atuam em sentidos contrários, geralmente gerando conflitos e rivalidades, talvez seja a maior e mais séria tarefa a ser exercitada na convivência humana.
E é exatamente nesse aspecto que a educação, seja doméstica ou formal, falha, já que não é dada qualquer prioridade à única e inevitável ação: conviver. Nada pode ser feito nesta vida sem que se tenha, no mínimo, a participação direta ou indireta de outro alguém.
Deveria ser simples assim o entendimento, mas não o é, na medida em que os julgamentos de qualquer natureza se antepõem à racionalidade, levando cada pessoa a tecer no outro a continuidade dos seus próprios pontos nas colchas da convivência.
Absolutamente nada, além do aparente, se sabe sobre o histórico do outro. Ainda assim, arvora-se no desrespeito, atribuindo a ele, aspectos que nada têm a ver com a realidade, criando-se, de imediato, um mal-estar muitas vezes evitável.
Sozinha, no aconchego de paz e liberdade que privilegiei para a minha vida, penso no somatório dos muitos anos em que, silenciosamente, fui armazenando conhecimentos, muito mais de forma empírica, nas minhas convivências, do que propriamente através dos livros e mestres.
Paciente e silenciosamente, fui registrando e, ao mesmo tempo, aprendendo, da forma mais dura, porém consistente, o quanto é preciso ter autoestima e consciência da finitude para não se deixar abater pela massacrante estupidez humana frente à grandiosa vida.
Entendi, há muito, que era todinha vida, consciente de que precisava lapidar-me, deixando ao outro, na convivência, no mínimo, o brilho da gema da pedra bruta que era e ainda sou.
Regina Carvalho – 11.02.2026 – Pedras Grandes, SC

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