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É SEMPRE BOM LEMBRAR


Estou aqui pensando neste final de tarde, muito encalorada, que não precisei de tragédia pessoal e tão pouco adoecer para reconhecer a importância da vida e para conservar as boas lembranças que, afinal, foram responsáveis pela minha formação de pessoa humana. E isto me faz sentir um enorme bem estar, pois não me sinto ingrata ou incapaz de sentir e enxergar o tudo de bom, que fui vivenciando neste longo percurso.
E não ser ingrata tem uma dimensão absurda de valores para mim, afinal, a gratidão é a base formadora de infindáveis outros sentimentos, capazes de me manter não só atuante, mas, acima de tudo, ligada em emoções mais leves e gratificantes.
Todo este rodeio me leva à sorveteria do Morais, lá na minha encantada Ipanema, no Rio de Janeiro, onde as especialidades eram os sorvetes de puras frutas, o bolo de aipim e o cuscuz de tapioca e coco.
E só de lembrar, sou capaz de sentir os sabores derretendo no céu da boca e como num filme, deixo rodar em minha mente, os prazeres de uma juventude ainda inocente e absolutamente livre.
Liberdade que me permitiu reconhecer os amores de minha vida, assim que os vi.
Liberdade que me preparou para sentir inúmeros prazeres, em sua maioria muito simples, mas absolutamente imprescindíveis para que eu pudesse sorver os momentos difíceis sem transformá-los em dramas e derrotas pessoais, porque, afinal, lá estavam as lembranças dos sabores, dos aromas, das pessoas e dos prazeres, como uma estrutura de apoio que jamais me deixou esquecer que a vida é bonita, é bonita e é bonita.
Feios muitas vezes somos nós em nossa também incapacidade de, simplesmente, viver.
Viver o real, o lúdico, o apenas simples, que em sua maioria guarda tesouros inesquecíveis, como o sorvete de milho verde, servido na casquinha crocante que por toda a minha juventude foi o preferido e cujo sabor alimentou a minha alma, assim como o seu aroma perfuma os meus sentimentos até os dias atuais.
O tempo passou, a noite chegou e cá estou conversando com o passado, como velhos amigos que não se esquecem, como velhos parceiros que se complementam.


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