domingo, 6 de maio de 2012

ATRAVESSANDO A NOITE

Raramente perdi uma noite de sono, fosse lá por que motivo, pelo menos nos últimos vinte e poucos anos em que, imbuída em provar do cálice do sentir existencial, pisei  fundo no freio da compulsão de querer ser igual a todo mundo com quem até então havia convivido, não por outro motivo que não fosse um tremendo cansaço que me minava a alma,  empanava  minhas reais necessidades que, abusadas, se faziam queixosas e resmunguentas, fazendo de mim um ser que tudo aparentemente possuía, mas que verdadeiramente, só precisava de sossego.

 Depois que percebi a minha alma resmungando, constatei que minha tão privilegiada autoestima, estava também ficando queixosa, minando o meu entusiasmo por quase tudo, fazendo questão de me induzir a questionar velhas posturas e como uma mãe mais que zelosa, eu diria, até mesmo, uma mãe chata, foi ficando cada vez mais contundente, limitando excessos, apontando novas perspectivas, desconstruindo velhos conceitos, até que eu me desnudasse em meio ao deserto da futilidade que cria ser meu universo, perfeito e imutável, e ao tombar  exausta, deixei cair, pensava eu na época, todos os resquícios de uma educação voltada ao egocentrismo de apenas querer ter, sem qualquer maior observância quanto ao querer e necessitar ser.

Qual nada, vez por outra, lá estava, resgatando quereres desnecessários, fazendo cópias e com elas me vestindo sem qualquer autenticidade de brilho, pois os quereres não eram apelos do  meu ser, tão somente brilhos  alheios induzidos  que me arrastavam como uma compulsiva sem controle, como uma  menina  mimada e aborrecida, mal acostumada e teimosa que tudo que via queria e que com tudo que conseguia, sofria, porque o vazio solitário, certamente retornaria transformando, se deixasse, minha vida  novamente em um ciclo vicioso e sem  quase nenhum sentido.
Não sei bem como, muito menos quantas vezes, fiz o que faço agora, espanto o sono, mas resgato a bendita mãe, autoestima.

Ah!... Com certeza resgatei e  resgatarei  por todo o tempo, pois fiz dela parceira forte , sempre presente nos meus pensares, e ela, como vigilante contumaz, impiedosamente apaixonada pelo meu bem estar  que, aliás sempre me deu, como exatamente nesta madrugada, suaves,  mas nem sempre, pois algumas vezes foram dolorosos, beliscões, para que eu voltasse dos meus tórridos delírios em que o sistema, os velhos hábitos e sei lá mais o que, pudessem estar me seduzindo.
O sono desta noite eu perdi ou, simplesmente, dormi o suficiente?

Afinal, estou calma, relaxada, se bem que pensativa,  avaliando decisões que preciso admitir, tentando entender minhas  argumentações pessoais que estão em conflito, afinal, já sei perceber as sutilezas apelativas que permeiam meu racional, tentando conduzí-lo ao meu apaixonado e teimoso emocional,  perigosamente enganador, sempre ingênuo, se entregando sem perguntas e sem cobranças, fazendo de si, espaço  livre, reduto puro, nem sempre devidamente resguardado, nem sempre sabedor de como não magoar esta senhora.

Biologicamente sem sono e racionalmente envolvida em dar espaço seguro ao meu emocional, para que ele se explique, se situe ou se recolha, pois afinal de contas, quero ser justa nesta minha pendenga de dúvidas.

O dia, já está quase amanhecendo e eu aqui, aparentemente sozinha, troco figurinhas cognitivas, fazendo da falta de sono, crônica, percebendo aos poucos que meus olhos estão ficando pesados, levando-me, vez por outra à fechá-los, reconhecendo que o senhor sono, enfim, vem retornando, tendo apenas ido dar uma voltinha, tempo bastante para eu filosofar.

Boa noite para vocês também.




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