quarta-feira, 14 de janeiro de 2026


 

POR UNS TROCADOS A MAIS…

Abri a janela do quarto e a neblina cobria toda a rica vegetação, trazendo até mim um friozinho gostoso, como se já fosse outono, quando a temperatura se torna mais amena.

Qual nada. As folhas e galhos secos caídos eram apenas resultado da ventania de ontem à tarde, aquela que, por instantes, pensei que levantaria do chão a minha frágil cabana das montanhas, levando-me junto, sem vassoura entre as pernas, como normalmente as bruxas percorriam o universo nos livros infantis. Pelo menos nos da minha geração, onde o lúdico envolvia a mente e me transportava para bem longe do impossível.


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

FALSO BRILHANTE

Vivemos de miudezas

que fingimos não ver.

O ir e vir dos filhos,

a fila que não anda,

o autocarro cheio,

o “bom dia” automático

que sai da boca

sem passar pelo coração.

São banalidades, dizemos.

Mas são elas que nos gastam os dias,

que polêm ou apagam

o brilho dos instantes

conforme a forma

como os deixamos entrar.

Choramos perdas,

engolimos a fome,

seguramos o corpo e a alma

no trânsito parado.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026


 

INCAPAZ DE VIDA

Quatro e trinta. Sou acordada por uma orquestra sinfónica de grilos e sapos, tendo como solista uma afinadíssima cigarra. Abro a janela e volto a deitar-me, agora com diante dos olhos mais um espetáculo da natureza, cujo bilhete de acesso só me custou paixão.

Penso, diante de tanta beleza, no quanto ainda, como humana, sou tola e frágil nas emoções e nos sentimentos. Lamento momentos perdidos entre a vaidade e a ambição, que me roubam a graça maior de me sentir apenas vida, porque me deixo induzir pela sedução do estéril e do pueril que os meus sentidos adulterados insistem em reconhecer.


domingo, 11 de janeiro de 2026

 


DÚBIA PRESENÇA

São seis e trinta, e no horizonte a neblina vai-se dissipando lentamente, escondendo-se entre as colinas, mergulhando silenciosamente no mar da vegetação nativa que adoro apreciar a cada amanhecer.

E como não associar esse movimento à mente humana, que esconde emoções e consequentes sentimentos por entre comportamentos aparentemente sociáveis?