Há momentos que nascem únicos
e, ainda assim, o tempo insiste em torná-los comuns.
Outros, mais graves, crescem à sombra da indiferença,
quando deveriam ser interrompidos com firmeza
antes que o hábito os transforme em norma.
Talvez seja falha de um sistema que ensina a correr,
mas não a sentir.
Que orienta escolhas,
mas deseduca o essencial.
Há no humano uma tendência antiga:
abandonar o que sustenta
para se agarrar ao que brilha.
Confundir urgência com ruído.
Elevar o banal à categoria de indispensável.
E assim, o descartável ocupa o centro,
enquanto o vital afunda
nos poços profundos da ignorância existencial
lugares onde nem a lua cheia ousa entrar.
Só quando a finitude se aproxima,
como um aviso tardio,
é que se tenta compreender
o que sempre esteve à vista.
Perde-se, então, a vida.
Não por ausência de tempo,
mas por ausência de encontro.
Sem intimidade.
Sem presença.
Sem ter tocado o que realmente importava.
As atenções dispersam-se
em chagas emocionais repetidas:
algumas leves, passageiras,
como o falso regozijo que logo se desfaz;
outras rígidas,
presas ao mecanicismo de pensar e agir
sem alma.
E a vida generosa, silenciosa
segue o seu curso.
Corre como um rio
em direção a um mar que existe,
mas que o insensato
jamais alcança.
Ontem, ouvi 1,3 centímetros de vida.
Um coração minúsculo,
sete semanas e quatro dias,
pulsando com firmeza
no ventre da minha Anna.
Aquele som não pediu argumentos.
Não pediu debate.
Apenas afirmou a sua existência.
Ali, compreendi mais uma vez
que ser contra o aborto
não é rigidez,
nem retrocesso,
nem tradição cega.
É consciência.
A vida não é um erro a ser corrigido,
nem um excesso a ser eliminado.
É um princípio.
E, se para tudo existe solução,
ela começa sempre
no entendimento lúcido
do sim
e do não.
Regina Carvalho
07.01.2026 — Pedras Grandes, SC




