O friozinho maroto muito raramente aparece por estas bandas
de cá, onde o sol imponente por todo o tempo estabelece presença, mas ainda
assim, sorrateiras e astutas, as brisas leves de um suposto inverno, insistem
em não arredarem seus pés e como estou sempre atenta, aproveito-me
descaradamente de cada uma delas, deixando-me arrepiar safadamente, assim como
as recebo sem qualquer proteção, pois confesso adorar a sensação que percorre o
meu corpo, fazendo estremecer gostosamente a minha pele, proporcionando-me um
gozo salutar que me faz sentir mais e mais, esta vida que sempre me surpreende,
mesmo que em meio a um cotidiano, aparentemente igual.
Pensando sobre tudo isto, creio que fiz da natureza em suas
infindáveis variantes, um amante delicioso que supre com seu inesgotável charme
e sedução, todas as minhas inimagináveis carências de ser humano exigente que
insiste em extrair desta vida, emoções continuadas, justo por compreender, que
só elas são capazes de verdadeiramente, justificarem a minha própria existência,
em meio a esta inesgotável fonte de prazeres que é a minha também compreensão, quanto
ao ato contínuo de viver.
Porque, afinal, admitir-me eterna é tão assustador quanto pensar-me finita e como ambos são irretocáveis,
resta-me tão somente, extrair destas certezas absolutas, o maior gozo, a maior
plenitude, fazendo de cada instante presente, minha eternidade, aceitando cada
emoção como um despertar fabuloso, após a finitude do momento passado e neste
ciclo ininterrupto de vida e morte a cada instante, percebo-me eterna,
grandiosa e absoluta.
Não consegui jamais ter medo de uma possível morte como
jamais fui capaz de sentir medo da vida, talvez por senti-las por todo o tempo
em meus sempre apreciados momentos presentes, como o sol ardente e o friozinho safado,
que me fazem estremecer cada qual a sua maneira.
Não sinto qualquer culpa por permanecer ligada a este amante
adorável que por si só me encanta e me estimula a querer muito da vida, assim
como da morte em um ciclo ininterrupto de incontáveis prazeres.
Agora mesmo, chove lá fora e o friozinho da madrugada
atravessa as paredes, vindo ao meu encontro e eu que jamais me faço de rogada,
respiro fundo, fecho meus olhos e safadamente me entrego a mais um gozo de vida
e liberdade.
Bendita a vida que me deu vida, bendita a vida que me renova
em infinitas mortes.
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