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MEU IRMÃO: Eugênio Carvalho - Uma viagem pela evolução do áudio.

Rodrigo Bertolucci

Com um currículo invejado e considerado um exemplo pelos profissionais de sua área, Eugênio Carvalho, de 68 anos, passou mais de duas décadas como operador de áudio. Vozes como a de Roberto Carlos e de outros nomes da música popular brasileira e até de ídolos internacionais foram trabalhadas pelo especialista, que começou sua carreira na Rádio Ministério Educação (RJ), em 1960, além de especiais de final de ano do cantor Roberto Carlos, da TV Globo.

Eugênio Carvalho já trabalhou com festivais que marcaram época como os 100 anos de MPB e até no Rock in Rio edições I e II. Ele ficou até 1962 na Rádio Ministério Educação trabalhando na discoteca e sendo operador de mesa de som. Na época, atuou mais com música clássica. Dali ele foi para a TV Rio, onde teve a oportunidade de trabalhar em todos os programas que eram exibidos como, por exemplo, o de Rita Pavone, cantora italiana que na época estava no auge. “Todos os nomes internacionais que vinham nesse período passavam por lá, até o filho do Frank Sinatra, que hoje está de volta. Eu também participei do trabalho de outros artistas que estiveram no Rio fazendo show, como do cantor Johnny Madison”, lembra Eugênio. Ainda em seu currículo, Eugênio participou do movimento “Jovem Guarda”, que também ocorria em São Paulo, mas que era feito no Rio de Janeiro, isso ainda na década de 60. Mais tarde, Carvalho chegou a encontrar toda essa turma no estúdio da CBS, onde passou a trabalhar. “Ainda quando estava na TV Rio, o engenheiro da CBS Sérgio Lara Campos me convidou para fazer parte de sua equipe”, comenta.

 
A primeira música que Eugênio trabalhou na CBS foi “Calhambeque”, de Roberto Carlos. “Essa foi a primeira gravada e mixada por mim e pelo Sérgio, que além de engenheiro também era operador de mesa”, destaca. Carvalho trabalhou com o cantor Roberto Carlos, em estúdio, de 1963 a 1975, depois acompanhou o artista em seus especiais de final de ano na Rede Globo. “Eu gravava tudo, desde a base, a voz, mixagem. Tudo. Já em 1975 Roberto começou a fazer a base nos Estados Unidos. Ele trazia as fitas e os playbacks de lá e colocava a voz, o coro e mixava aqui”, conta Carvalho. Depois de algum tempo, Roberto Carlos passou a fazer tudo nos Estados Unidos. “Chegava aqui, a gente só fazia os reparos, colocava coro e outros detalhes de edição”, diz.

EDIÇÃO

Segundo o profissional, na época, por volta de 1970, os cortes de edição eram feitos com gilete e à mão. Atualmente, devido à modernidade de equipamentos, a edição é feita eletronicamente, o que facilita tanto aos operadores quanto aos artistas que não precisam repetir várias vezes as músicas. “Na época, nós gravávamos diversas vezes e, em muitos casos, a gente gostava da primeira parte da música da primeira gravação; da segunda parte da terceira gravação e assim por diante. Nós tínhamos que editar tudo isso, à mão”, destaca.

Para Carvalho, hoje as pessoas não dão valor ao que era feito antigamente, pois os profissionais da época tinham que ter conhecimentos musicais e trabalhar eletronicamente com fita. “Nós tínhamos que achar o ponto exato de edição da fita no ouvido. Hoje em dia nem é preciso entender de música para trabalhar nesta área, o artista coloca a voz e se estiver desafinado a máquina afina. As pessoas eram muito boas e criativas”, opina. 

Na época, conforme Eugênio, os amplificadores eram pequenos e de baterias nacionais (amplificadores Ipame) e eram colocados em cima das cadeiras com os microfones perto para captar o som dos instrumentos como guitarra, baixo e outros. Com o passar do tempo, foram surgindo os amplificadores Tender. “Isso ainda na década de 60. A chegada desses amplificadores era uma coisa de outro mundo, uma modernidade para a época”, destaca.

 
De acordo com Eugênio, quando começou a trabalhar como operador de mesa, em meados da década de 60, já havia uma tecnologia, em sua opinião, avançada. “Eu dei muito valor para as pessoas que me antecederam; eles gravavam direto na cera e eu acho essa evolução uma maravilha até hoje”, frisa. Eles gravavam o microfone com uma máquina, em que o disco, em cera, era produzido. Depois a cera era cortada com diamante e era prensado o disco. “Eu valorizava muito os profissionais daquela época. Eles colocavam a orquestra toda de uma vez e gravavam. Se não dava certo, tinham que passar a régua naquela cera, jogar fora e fazer todo o procedimento novamente”, admira. Já na época de Eugênio, existia fita de áudio e outras tecnologias para o período. “Era mais fácil para editar e repetir as gravações, pois era só voltar a fita”, explica.

EVOLUÇÃO

Logo quando Eugênio começou a atuar como operador de mesa, eram utilizados os amplificadores Ipame e depois vieram os Tender. Em seguida, segundo ele, começaram a entrar no mercado os equipamentos de sopro Leslie e as caixas Leslie.

No estúdio da CBS os instrumentos, que passaram com o tempo a serem gravados naipe por naipe, eram gravados todos de uma vez. “Era menos custoso para a época gravar tudo de uma vez. Na CBS tinha uma cortina que dividia o estúdio, eu colocava de um lado toda a parte de cordas e o piano e no outro lado a bateria, baixo, guitarra e os metais (trompete, trombone, flauta, sax e outros que precisassem)”, ressalta. 

 
As gravações eram feitas em três canais (pistas). Nas pontas, de acordo com Carvalho, ele usava os metais e as cordas e no centro era gravada a base. “Depois eu passava para uma outra máquina em que fazia o play-back e botava a voz e o coro. Praticamente já tinha que fazer a coisa mixada, se juntasse os instrumentos, por exemplo, tinha que dar uma dinâmica para poder depois ter um resultado melhor. Já hoje não, tem mesa de até 60 canais e é colocado um metal em cada canal e depois se faz a dinâmica”, compara. 

Segundo Eugênio, logo quando começou a trabalhar, tinha uma mesa com apenas três pistas, todas as gravações eram feitas juntas, ou seja, base, instrumentos, bateria, piano e outros. Ele só foi conseguir começar a editar sem ter que voltar toda a música para gravar quando chegaram as mesas de oito pistas, isso no final da década de 70 e início da de 80. “Tinha uma mesa com 30 microfones que eram reduzidos para oito pistas, que a gente chama de oito canais. Fazíamos praticamente tudo ao vivo, direto. Depois que veio essa mesa de oito canais começamos a fazer uma edição eletrônica e pegava daquele ponto em diante. Depois a gente fazia a junção na gilete. Assim ganhávamos mais tempo”, lembra.

NOMES

Além do cantor Roberto Carlos, Eugênio já trabalhou com toda a Jovem Guarda como Jerry Adriani, Wanderléa, Golden Boys, Renato e seus Blue Caps e outros. “Todos eles gravaram comigo. Se fizer um levantamento dos artistas da CBS, todos já passaram por mim”, garante. Ele também participou do Rock in Rio I e II, na década de 80 (na época trabalhou com mesas Yamaha de oito canais, mas já com 35 canais de entrada).

Ele também fez o Festival dos Festivais da Rede Globo (trabalhava com três mesas ao mesmo tempo), em que percorreu o Nordeste, Sul e Rio de Janeiro. “Neste festival descobrimos muitos talentos como Tetê Espíndola, cantora de MPB do Mato Grosso do Sul. Também participei em um desses festivais, no Maracanã, em que a Lucinha Lins foi vaiada por causa da música que ela tinha cantado e ganhou o festival. Foi uma injustiça do público porque ela não tinha nada a ver com isso, fizeram uma música e deram para ela cantar”, frisa. 


Para Eugênio todas as fases profissionais de sua carreira foram marcantes. “Passei por várias coisas de cunhos diferentes, tive muitos momentos bons e sempre aproveitei isso. Há, é claro, algumas coisas que prefiro não guardar na lembrança, mas foram poucas as vezes que me aborreci”, afirma.

CASO INUSITADO

Eugênio comentou que já passou por momentos inusitados. No fim da década de 90, segundo Carvalho, em uma das gravações do “Criança Esperança”, já como supervisor técnico, fez uma “lambança” que não podia ter acontecido. “O meu técnico estava operando os playbacks e tinha um outro gravando. A gente ia gravar em dois sistemas diferentes. Tínhamos que soltar os dois ao mesmo tempo e eu fui e desliguei um; eu achei que ele estava trabalhando com aquele sistema e não era. O Milton Nascimento, que estava cantando na hora, ficou parado e eu tive que correr para apertar o botão de novo”, lembra Eugênio, que considera hoje em dia a ocasião engraçada. 

Carvalho, que atualmente é aposentado, saiu da Rede Globo em 1998. Depois ele voltou e trabalhou nas duas primeiras edições do Big Brother Brasil. “Eu já estava aposentado e preferi ficar afastado mesmo”, enfatiza o então operador de mesa, que iniciou seu interesse pela música ainda na infância. “Entrei para essa área sem saber nada e aprendi em uma mesa, duas pickups e um gravador. Sempre gostei de música, ainda quando estudante já cantava em coro e isso me facilitou bastante para trabalhar como operador de mesa de som, pois eduquei o meu ouvido musicalmente”, comemora. Até hoje, conforme Eugênio, quando vai assistir a alguma apresentação musical e ouve algum músico ou cantor desafinando sai de perto. “Eu comento com a minha esposa, não agüento quando os coros desafinam ou semitonam. As pessoas deveriam, durante o primário, ter uma noção musical, isso seria bom para todos”, sugere. 

Ele destaca que teve um diretor na CBS que tinha ouvido “absoluto”. “Ele era terrível, em um naipe com 10 violinos, ele descobria um que estava desafinando ou que não estava tocando. Ele dizia para eu ir dentro do estúdio e saber o motivo do músico não tocar”, lembra. “Ele era uma pessoa que eu respeitava muito, pois em uma banda inteira ele descobria um instrumento que estava desafinando e isso é muito difícil”, completa.

BRINCADEIRAS

Como em vários ambientes de trabalho, alguns funcionários brincam com os recém-contratados ou até mesmo com as pessoas que freqüentam o local, seja cliente ou amigo. Eugênio enaltece que em sua época não era diferente. Um caso engraçado, citado por ele, foi o do pianista Mauro Motta, que atualmente é produtor musical e trabalha com Roberto Carlos. “No primeiro dia em que ele foi gravar conosco no estúdio, o pessoal disse para ele que o maestro que ia chegar não gostava muito de novato. Para comprar e agradar ao maestro Pacheco tinha que lhe dar um cacho de bananas, que era do que ele gostava. Ele comprou as bananas e colocou em cima do piano. Nós, antes, conversamos com o maestro, para ele também entrar na brincadeira e chegar de cara feia no estúdio. O Mauro achou que estava agradando o maestro e só depois de um bom tempo veio a descobrir que era uma brincadeira”, relembra. 

Outra história engraçada, segundo Eugênio, era a de um argentino que tocava piano e o mesmo maestro Pacheco, que também era muito gozador, escreveu uma letra de música para piano com bolinhas de pingue-pongue, que foram colocadas nas cordas do instrumento. Quando ele ia tocar o instrumento, as bolinhas pulavam e fazia um outro som. Só muito tempo depois que o pianista veio a perceber que era uma brincadeira. “Essas situações eram engraçadas e sadias. Foi um tempo muito bom”, considera.

EXEMPLO

Para o sonoplasta Ricardo Gama, funcionário da Rede Globo, trabalhar com Eugênio Carvalho foi uma ótima experiência profissional. “Comecei a atuar com ele no ano de 1997, no Teatro Fênix, TV Globo. Eu, como sonoplasta e ele como supervisor. Entre vários Domingões do Faustão, Angelmix, Carnavais e especiais musicais variados fomos construindo uma bela e sincera amizade”, comemora Gama, que considera Eugênio um “mestre”. “Ele é daquelas pessoas que passam pela vida para mostrar boas maneiras de se fazer boas coisas”, opina.

Ricardo ainda destaca que Eugênio tem um ótimo humor. “Sua experiência e opinião passaram a fazer parte do meu dia-a-dia. Até hoje eu utilizo suas observações”. Gama também comenta que sempre que pode, mostra para a galera mais nova o diferencial das gravações e mixagens de Eugênio. “Bom gosto e capricho. É só ouvir aqueles LPs ‘As 10 Mais’ ou os primeiros do Roberto Carlos, e se não me engano o primeiro do Zé Ramalho, aquele do AVOHAI e boa parte do cast da antiga CBS. É um prazer e um orgulho primar da amizade dele”, finaliza.

RENATO E SEUS BLUE CAPS

Além da relação profissional, a carreira proporcionou ao operador de som a oportunidade de fazer várias amizades, que continuam até os dias atuais. Renato Barros, de 62 anos, da banda Renato e seus Blue Caps, é um exemplo. “Conheci o Eugênio quando fui para a CBS em 1964. A gente enchia muito o ‘saco’ dele. Nós ouvíamos muitas músicas internacionais e queríamos tirá-las para gravar. Ele é um parceiro até hoje”, garante. Para ele, trabalhar com o Eugênio foi muito interessante, pois, além do clima de muita alegria, havia muito profissionalismo. “Eugênio foi importantíssimo, pois ele era o melhor operador da empresa que era considerada na época a top. Era um dos mais requisitados profissionais da época, pois fazia realmente milagres”, considera. 

Renato comenta que Eugênio gravou grandes sucessos da segunda metade dos anos 70. “Ele é o chefe da técnica. Pegou o início de todos os que se destacaram naquela época”, ressaltou. Um ponto positivo de Eugênio, para Renato, é a facilidade de trabalhar e entender sobre diversos estilos musicais. “Ele fazia do rock ao brega. No final dos anos 60 e começo dos 70, ele pegou o movimento dos nordestinos, que foi quando surgiram os nomes Amelinha, Zé Ramalho, Fagner e outros que também passaram pelas mãos de Eugênio”, ressalta o cantor e músico, que trabalhou com Carvalho de 64 até o final dos anos 70, quando a CBS resolveu desativar os estúdios. 

“Gravar com Eugênio era muito bom, pois além do ambiente amistoso, ele era um ótimo profissional e entendia muito. A gente podia errar que ele estava lá para nos ajudar. Ele era parte integrante na criação musical”, finaliza.

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