sábado, 31 de dezembro de 2011

Extremos...

Sou tão viciada em conversar comigo mesma que me habituei a escrever o que penso apenas para ter assunto por todo o tempo. Comigo mesma, é claro. Se não esqueço por que escrevi, relembro e, então, posso rever sentimentos e conceitos, às vezes expressando verbalmente minhas alegrias, tristezas ou raivas por tê-los habitando o meu ser.


Esta foi a forma que encontrei para não enlouquecer em meio ao turbilhão de emoções que sozinha, sem eu mesma, não só me sufocava, tirando o brilho de meus instantes presentes, como intui que me destruiria.

Bem... Na melhor das hipóteses me transformaria em alguém, digamos, frívolo emocionalmente, passando pela vida sem senti-la com tanta intensidade e buscando por todo o tempo, compensações, tipo recompensas pelos danos suportados.

Deduzi e confesso, até experimentei a solidão existencial, passando a me sentir lesada e, o que é pior, fora de qualquer contexto, fosse ele qual fosse, sem ter verdadeiramente maiores integrações comigo, que afinal, sou eu mesma.

Será que estou me fazendo entender?

O que digo é que percebi, logo bem cedo, em minhas experiências cotidianas, que as pessoas à minha volta faziam coisas, aliás, muitas coisas, sem que necessariamente estivessem compartilhando consigo mesmas.

Percebi também que lhes pareciam muito difícil ficar sem ter o que fazer, o que na minha cabecinha de criança, transformava-se em um carrossel colorido que não parava de girar por todo o tempo, corroendo a tinta que o fazia atrativo e danificando as ferragens pela falta de manutenção.

Naquela época, que já vai lá bem longe, esta agitação que enxerguei nas pessoas, fosse na escola, na praia, em família ou em qualquer outro lugar, causava-me uma espécie de ansiedade que foi crescendo e se transformando em uma espécie de medo. Afinal, eu não queria ser como aquelas pessoas que não tinham tempo para fazer, por exemplo, o que eu mais gostava, que era, tão somente, ficar quieta, olhando o aparente vazio que existe em qualquer lugar, até mesmo em um quarto fechado.

Digo aparente, porque este é o “óbvio inexistente” que as pessoas insistem em crer, pois não conseguem qualquer ligação, por mais simples que seja, com o universo movimentado de suas próprias emoções e que se devidamente observado se transforma, dando-nos a dimensão de suas reais proporções, na maioria das vezes totalmente antagônicas às realidades vivenciadas.

Exagerando para mais ou para menos, exatamente porque não estamos preparados para reconhecer de pronto o que nos convém ou não, passando imediatamente para o estágio seguinte de aceitação ou negação, sem que tenha havido respeito pela nossa própria essência, senhora que é do comando selecionador de nossas necessidades.

E aí, escrevendo, penso que vez por outra no decorrer de um só dia, milhares de infinitos instantes são destruídos ou construídos com uma moldagem que nos é falsa e oca, deixando-nos soltos em nossos interiores, batendo de um lado para o outro, como se fossemos barcos à deriva de um mar que na realidade, se bem observado, poderia nos proporcionar um navegar rico não só de harmonia, mas de enormes e gratificantes emoções, até porque, que na exatidão da analogia é viver, devemos dela reter tão somente o que nos proporciona qualquer tipo de gozo, dispensando sem culpas tudo quanto nos remeta a pensar que não está valendo à pena. Entretanto, na medida em que fui crescendo, percebi amedrontada que as pessoas com as quais eu me relacionava, sequer admitiam relacionamentos mais profundos com elas mesmas em posturas emocionais suicidas, permitindo que o acaso ou excesso de previsão futurista, que para mim mais pareciam grades, pautassem seus caminhares, limitando-as de forma cruel, pois o melhor e o pior de si mesmas, passava por elas sem que sequer se apercebessem, e aí... bem, esses sentimentos autênticos faziam nelas apenas pousadas, jamais um lar.

É isso aí! Busquei e encontrei este lar acolhedor que posso ser para mim mesma. Senhora geradora das emoções que me convém, pelo menos na maior parte do meu existir, sem qualquer preocupação em parecer o que não sou, oferecer o que não tenho e muito menos receber o que não me é afim.

Fácil?

Qual nada, o sistema é viciante, é um carrasco mutilador. É preciso vigilância que exerço com o velho hábito de conversar livremente, sem receios e não me toques. Com essas emoções ariscas, que todos temos dentro de nós para facilitar este projeto de intercâmbio cognitivo, indico que se dêem nomes diversos aos seus sentimentos, vestimenta e até origem, pois dessa forma enriquece-se o cenário, dando-se mais colorido ao espaço vazio da solidão interior que, afinal, é o inferno que eu e você tememos tanto, que até nele nos lançamos como loucos, como se a cada instante em que nada precisássemos fazer, tivéssemos que fazer, por medo de estarmos apenas com nós mesmos.

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