sábado, 28 de fevereiro de 2026

 FORA DO BALAIO DO SILÊNCIO

Acordei neste sábado pensando e avaliando tudo o que escrevi nesta semana, sem esquecer o que produzi ao longo de minha vida. Concluí que foram palavras que brotaram de uma dor profunda e, portanto, legítima e, mais do que isso, lúcida. Afinal, amar meu país não é fechar os olhos para as suas feridas; é justamente o contrário. Penso que só quem ama é capaz de se indignar. Só quem sente pertencimento se revolta quando vê o descaso.

Meus textos não são apenas críticas, mas o reflexo de minha consciência viva e participativa, sem vínculos partidários, dependência financeira ou ligações emocionais que extrapolem a avaliação do senso ético que a estrutura. 

👇👇👇 ilustração da IA


Há muito reconheço que a consciência incomoda ainda mais onde a polarização criou raízes atávicas. Como humanista e apaixonada pela filosofia estoica, coloco a vida como eixo central, o bem comum como meta e a preservação de ambos como prioridade.

A ética comportamental de qualquer autoridade, aplicada em todos os níveis da vida pública, torna-se legítima quando expressada através da devida transparência, permitindo, então, que o povo possa avaliar os reais benefícios de cada ação empregada no exercício do mandato. 

No Brasil, tornou-se prática recorrente a não percepção de que cargo político é tão somente conquista de trabalho, cujo patrão é o povo, razão maior de sua existência. Assim como numa empresa privada, vereadores, deputados, senadores, juízes e forças armadas (nas quais se inserem as polícias militares e civis) são cargos coadjuvantes num processo de funções hierárquicas, cuja finalidade única é a de preservar o melhor andamento possível dos trabalhos empreendidos o que,  jamais foi respeitado no cerne dos objetivos básicos de nosso país.

Daí surgem as distorções oriundas dos egos vaidosos, egocêntricos e preconceituosos, somadas às formações de fluxos migratórios com variações culturais e ao fato indiscutível das dimensões continentais. Tudo isso fortaleceu a falta de integração da comunicação, o que proporcionou, desde sempre, uma espécie de fatiamento e a criação de pequenas dinastias com seus ditadores locais de poder, únicos capazes de interagir na ascensão do todo. Criou-se, assim, um poder central onde somente parte deste complexo corpo de atuação pública, responsável pelo bem-estar das populações locais, ficasse em contínuas disputas de poder.

Ao longo do tempo, o bolo foi sendo mais fatiado e as porções ficaram ainda mais reduzidas, em contraponto aos mais esfomeados líderes que, sem contenções, fizeram de seus cargos caminho, meio e fim de seus próprios interesses. Oferecem ao povo, como uma espécie de "cala boca institucional", frágeis rações que os mantêm em sobrevida para exercerem as únicas funções que lhes cabem: aplaudir e votar.

Portanto, a obrigação administrativa passou a ser "favor" de autoridades salvadoras; o erário deixou de ser público para ser particular; e gente como eu, e tantos outros que em dado momento compreenderam a dança vampiresca, transformou-se em "meliantes", perseguidores contumazes de ilibados santos e santas existentes em cada município deste meu país varonil.

Pessoalmente, quando paro para observar, sem véus de qualquer natureza, as mazelas que se apresentam, até mesmo no colorido das realizações públicas nitidamente frágeis e "meia-boca", sinto um misto de lamento e enjoo. Como nada posso fazer, escrevo. Não só porque alivia a minha dor, tirando-me do famigerado balaio do silêncio cúmplice, mas também porque ainda tenho esperanças, meio que lúdicas, de esclarecer e, quem sabe, tirar a venda e os tampões daqueles que recebem o mínimo pagando o máximo para mequetrefes de ocasião. Aqueles que, em cada município, se revezam incansavelmente com os mesmos discursos, trazendo consigo um razoável batalhão de bajuladores, animadores de plateias dos palcos onde seus chefinhos se regalam.

Regina Carvalho

28.2.2026 – Pedras Grandes, SC

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