segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Aleluia…

O dia acorda sem urgência. Espreguiça-se em tons pálidos, enquanto a luz aprende, pouco a pouco, a existir. São seis e dez. Segunda-feira. Fevereiro. E o Brasil dança, mesmo que eu observe de longe.

O Carnaval explode em cores, tambores e corpos livres. Eu fico aqui, à margem, confessando que apenas os desfiles me atravessam. Mangueira, amor antigo. Mocidade, simpatia permitida. Só a ela concedo o direito raro de vencer a minha verde e rosa.

Quando passam pela avenida, penso que também poderia estar ali: suando verdades, dançando excessos, gritando aleluias ao mundo como quem agradece por estar viva.


Talvez seja isso que eles sentem. Talvez não. Há mistérios que não se deixam tocar.

Por que escrevo sobre o que nunca vivi?

Porque, em silêncio, reconheço: sempre invejei quem deixa o corpo falar a língua antiga da liberdade, ainda que com hora marcada para começar e terminar.

O amanhecer avança preguiçoso. E eu percebo que o meu conflito nunca foi com a festas, mas com as datas.

Sempre resisti ao que vinha embrulhado em obrigação. Feriados, rituais, calendários, todos me soaram como instruções demais para um coração que queria improvisar.

Terei sido uma rebelde sem causa? Ou apenas alguém fiel ao próprio ritmo?

Por que me dizer quando sorrir, quando dançar, quando descansar, quando amar a vida?

A esquisita aqui segue resistindo. Não por desprezo, mas por escolha. E isso incomoda aos demais.

São seis e quarenta. A neblina insiste, mas o sol insiste mais. Ele sempre vence.

Cada existência deveria ter o direito à sua própria coreografia, sem aplausos obrigatórios, sem julgamentos apressados.

Ser livre, para mim, não é romper com o convencional e sim, apenas não permitir que vendam as minhas emoções em prestações ou em datas comemorativas.

A minha liberdade não desfila. Ela simplesmente, amanhece.

Regina Carvalho 9.2.2026 – Pedras Grandes, SC

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