quinta-feira, 15 de outubro de 2026
OFERECENDO SENTIDO
Hoje acordei pensando naqueles que já se foram deste plano existencial e com os quais convivi em variados níveis, absorvendo e doando energias e sentimentos. Posso, neste momento, respirar fundo, desviar o olhar para focar a paisagem diante de mim e apenas agradecer.
De repente, compreendo mais do que nunca o quanto pude ganhar com suas presenças, numa conscientização do que representaram em completude em minha jornada de vida. Cada qual tatuou em mim a sua marca de passagem: alguns por uma vida inteira, outros em breves percursos, mas todos irremediavelmente ainda moram em mim.
Serei, então, um pouco de cada um deles? Acredito que sim e, como um rio largo e profundo, sigo minha rota, amparada nas margens que, fiéis, seguem comigo...
Estou rio, mas em breve também estarei mar, quando, num encontro derradeiro, partes de mim se eternizarão em fragmentos de uma vida, cada qual repleta de amor.
Assusta-me a brevidade que vislumbro, assim como o manancial de quereres que ainda sou capaz de sentir. Então, escrevo, poetizo, na esperança de te envolver também em minhas águas que, apesar de volumosas, também são mansas e mornas. Não para seres mais um no meu fluxo, mas tão somente o único capaz de a tudo oferecer sentido.
Regina Carvalho – 15.10.2026 – Pedras Grandes, SC
quarta-feira, 14 de outubro de 2026
NÃO SE ENGANE
Hoje estou musical, bem mais do que geralmente sou, já que acordei ouvindo internamente a música Primavera, de Carlos Lyra. Imediatamente saí da cama, abri a janela e, durante alguns instantes, fiquei apreciando a natureza que, como um precioso quadro pintado por Deus, lá estava, abastecida pela sinfonia dos pássaros.
Tudo penso eu, que sou abusadíssima, ter sido criado só para o meu encanto. E aí, como não me sentir apaixonada só em pensar em tudo de bom que jamais me faltou, assim como uma humana raiz que ainda deseja?
O meu amor é tanto que não tem fim. Sou como uma frondosa árvore que distribui harmonicamente, e sem quaisquer reservas, seus fortes galhos com suas folhas resistentes e seus saborosos frutos em todas as direções, desejando sombrear, abrigar e alimentar todo aquele que, em meio a seus desertos pessoais, ainda não encontrou seu próprio oásis.
Porém não se engane, também eu, enquanto ouço músicas, espero, porque, apesar de ser uma poeta escrevinhadora, como todo mundo, também preciso, anseio e desejo.
Regina Carvalho-14.10.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração - IA
terça-feira, 13 de outubro de 2026
EMOÇÕES
Depois de um feriadão de muitas emoções, cá estou, depois de ter tomado o meu pingado, novamente dedilhando o que mais gosto de fazer, que é escrever, sentindo cada palavra que se forma e amando cada emoção que senti na minha vida, mesmo aquelas que não foram muito católicas, como se costuma dizer.
Geralmente não se é educado para a transparência, sempre com o piedoso argumento de que ser real é perigoso neste mundo mau e impiedoso com os fracos e descuidados. Bem, isso é verdade, já que, quando se abrem as janelas das emoções, o sol pode estar forte e até mesmo fazer arder os nossos olhos. Mas e daí? Pelo menos o sol aqueceu e por instantes acalentou deliciosamente o todo por completo.
Penso neste instante que me fazer de rogada diante do espanto bendito das emoções que sentia nunca esteve no meu currículo de amostragens e, para tanto, caminhei nem que fosse capengando, até porque imunidade total nunca foi prometida, nem a mim e a ninguém. Todavia, devidamente abastecida das muitas e poderosas emoções que tive o privilégio de sentir desde a mais tenra idade quando vislumbrei a completude em beleza, energias e forças contidas nas matas de Guapimirim, onde arrepiava-me com as beliscadas das piabinhas nas águas geladas do riacho e, ao invés de medo, me permiti simplesmente gritar sorrindo de felicidade, nem podia me aperceber do quanto estava sendo preparada para simplesmente viver.
Quando nos permitimos sentir sem culpas as infinitas emoções que nos rodeiam, tudo fica plausível, já que abrimos espaço para que nossa alma comande as escolhas, e ela, rigorosa e seletiva, não falha ou induz ao engano. Portanto, os primeiros beijos do Jef, o primeiro sexo com Roberto, o primeiro filho, o primeiro engano, o primeiro sucesso e os primeiros "tudo mais" que vivenciei dali por diante fizeram de mim o que fui e sou até hoje: um poço que, apesar de profundo, é capaz de ser observado através das águas claras e transparentes. E quando alguém delas faz espelho, simplesmente subo aos céus em gratidão.
Regina Carvalho -Pedras Grandes SC
Ilustração-IA
domingo, 11 de outubro de 2026
CAMA E MESA
Minha mãe já afirmava que eu era abusada, atrevida e respondona e, certamente, ela tinha razão. Afinal, os meus insistentes porquês deveriam aborrecê-la demais. Se bem que este meu jeito de ser não fora roubado, já que ela mesma a tudo questionava e meu pai então, cruz credo!
Tudo isso numa época em que a mulher, em sua maioria, só obedecia e o homem seguia o padrão machista de ter a sua razão absoluta. Pois é... Portanto, como eu poderia ser diferente, não é mesmo? E não fui, e aí não reside qualquer mérito maior sobre os demais. Apenas percebi, desde muito cedo, que a vida era incrivelmente perfeita e única, portanto, a minha também deveria ser. Para tanto, as minhas escolhas deveriam seguir o mesmo padrão de"qualidade" e de "intransferibilidade" .

