Esse texto era para ter sido escrito na noite de ontem, depois que o Brasil, no último instante do jogo contra o Japão, fez um gol, arrancando de mim mais que gritos e sorrisos de satisfação: benditas lágrimas de uma apenas brasileira que, apesar de não ser seguidora de futebol, enxergou mais que uma vitória futebolística. Talvez o primeiro grande passe para o renascimento da dignidade de um povo que há muito se encontra em baixa, sem o brilho das conquistas pessoais e sem as algemas do absolutismo disfarçado que o vem mantendo refém das migalhas aparentemente salvadoras.
De repente, lá estava eu conversando em forma de oração e chorando, como se, diante de mim, estivesse Deus pacientemente me ouvindo, numa atenção especial. Afinal, esse é um hábito que cultivei a vida inteira, já que sempre acreditei na força e no poder da comunicação entre mim e o sagrado.
Enquanto agradecia pela vitória, fazia questão, como tola, já que meu Deus bem sabia dos meus sentimentos de explicar as razões da minha euforia. E aí, sem aviso prévio, minha mente deixou fluir a lembrança de quando abracei uma mangueira na granja em Resende, onde morava com marido e filho, como se essa fosse o meu Deus, e roguei desesperadamente confiante por ajuda, sabedora de que só Ele seria capaz de aliviar a minha dor.
Esse fato ocorreu em 1981 e, em curto espaço de tempo, fui atendida. Em contrapartida, colocava-me à Sua disposição para que me polisse com os meios que achasse melhor. De lá para cá, minha intimidade se estreitou ao ponto de sentir Deus presente a cada instante, numa parceria amorosa que me sustentou de pé nos momentos mais difíceis da minha vida, assim como partilhou as infinitas vitórias e conquistas, e ainda me guiou como margem segura, estimulando a certeza de me sentir caminhando ao lado de um bendito amigo.
Ele, além de tudo, era Onisciente, sabedor de tudo sobre mim; Onipotente, sem limites para me oferecer o que verdadeiramente eu precisasse; e Onipresente, já que a qualquer tempo e lugar se fazia presente.
Os anos e décadas foram se seguindo ao ponto de não mais senti-lo como Divindade desta ou daquela religião, podendo enxergá-Lo com nitidez em tudo e todos à minha volta, afastando zelosamente o possível descuido que me levasse a dar qualquer atenção maior ao, digamos, Diabo que tentasse se aproximar, generosamente afastando os cálices tentadores dos vinhos tintos de sangue do impróprio.
Fui descobrindo que a fé residia na minha vontade visceral de senti-Lo, não como uma muleta a ser buscada como apoio nas necessidades, mas como um companheiro íntimo a quem eu devia apenas a lealdade em ser tão somente autêntica, não criando, assim, qualquer ranhura no nosso relacionamento.
Afinal, meu Deus não deveria ser subestimado, e muito menos o tudo e o todo que me envolvia. E aí, a partir da lógica desta realidade em poder vê-Lo, senti-Lo e até tocá-Lo, nada mais poderia ser desconsiderado, mesmo que disfarçado em mil formas que o astuto e tentador diabo se apresentasse, tentando me engambelar com o único propósito de me fazer sofrer e até mesmo me destruir.
O Brasil ganhou, chorei de gratidão... A saudade me invadia, chorei de gratidão... Sim, ontem, o aparente vazio de minha casa transformou-se numa festa repleta de amigos, trazidos por este Deus que adora distribuir convites aos seus parceiros de milagres e consolos, cada qual trazendo consigo a fartura dos comes e bebes da fé, companheira inseparável da esperança.
Chovia lá fora e fazia frio também, mas em minha cama já me esperavam os cobertores da paz. Como eu poderia postergar a delícia de adormecer na companhia de Deus?
Regina Carvalho-30.6.2026 Pedras Grandes SC
Ilustração- IA
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