terça-feira, 16 de junho de 2026

MIOLOS CONGELADOS

Estou na última meia hora, tomando um pingado diante do aquecedor, enquanto através das mãos tento esquentar minha mente que parece rígida de frio, recusando-se a pensar. 

Como sou teimosa, insisto. Afinal, acordei pensando que nem todo mundo tem a alma adocicada; alguns, inclusive, podem ser bastante amargos. 


Sinto-me qualificada para descrevê-los, já que ao longo da minha vida, em algumas ocasiões, os conheci bem de perto e até mesmo os amei, pois são, em sua maioria, sedutores.

Pois é, estampam qualidades e posturas capazes de nos levar a admirá-los e até a desejar ser como eles, já que conseguem ser fascinantes até que estejamos dominados pelas redes invisíveis de seus encantos.

Com o tempo, e graças às feridas que demoram a cicatrizar, aprendemos a ter cautela. Ao conhecer uma pessoa, abrimos um cauteloso espaço para a observação e aí, acreditem, torna-se menos penosa a convivência. Isso quando, por um motivo ou outro, precisamos permanecer perto delas, o que sugiro que não aconteça.

Todavia, como alguém que precisou de muito tempo e fé na vida, que sempre me pareceu incrivelmente bela, confesso que sobrevivi a todos. Mesmo que estes tenham tentado tirar tudo de mim, principalmente a força da minha perseverança em seguir adiante, a despeito deles e de suas maldades disfarçadas com o brilho falso do engodo. 

Posso afirmar que nem sempre é o acaso que os faz se aproximarem de nós, já que a maioria encontra-se no seio familiar, de onde fica quase impossível fugir sem que tenhamos que abandonar outras lindas criaturas que são preciosas.

Como reconheço que sou uma criaturinha teimosa, insisti, oferecendo a dúvida como propulsora das minhas insistências, crendo que, de repente, a pessoa em questão precisasse mais de afago que de abandono. E foi aí que me expus na ingênua arrogância de achar ser possível mudar alguém, já que uma alma degenerada não identifica sentimentos e sim poder de domínio.

Portanto, sobreviver a eles é uma glória só possível se não permitirmos que suas maldades penetrem em nós, desfigurando, através da dor que causam, a estrutura de nossa essência. Isso só se torna possível se formos pessoas tenazes na fidelidade do absolutismo do amor a nós, que chamamos de autoestima.

Não é nada fácil, mas também é quase impossível a uma alma degenerada destruir qualquer estrutura amorosa usando apenas de seus recursos malévolos. Eles precisam de armas extras para fulminar suas vítimas, e é exatamente isso que estamos constatando diariamente através das mídias que os expõem, alertando sobre as formas mais eficazes de fugir destes agressores, o que nem sempre é possível devido a inúmeros fatores.

Conclui-se que fugir para bem longe, arrastando consigo o que sobrou, mesmo em pedaços, é e será sempre a mais sábia decisão. Mesmo que, para tanto, seja preciso dobrar os joelhos e, por algum tempo, sujeitar-se a esta ou aquela situação que não se coadune com sua real capacidade, seja física ou intelectual. Acreditem, sei bem o que é isso, assim como sei que a força existente em nós atrai, sem que precisemos pedir ou implorar, benditos apoios que, como fachos da luz divina, nos envolvem em inusitadas oportunidades.

 Eles confirmam e oferecem silenciosamente a certeza de estarmos trilhando o caminho, no mínimo, da salvação, onde não cabem culpas pelo simples fato de se ter fugido, e não faltam incentivos para se prosseguir. E se a esta tenacidade, houver uns santinhos ou uns orixás aliados a uma fé inabalável na potencialidade amorosa de Deus, tudo a cada passada se torna possível. Os fardos vão se suavizando e se transformando em sorrisos autênticos e constantes. 

Como sempre fui um pouquinho esperta, aliei-me a ambos, afinal, quem disse que viver e conviver seria uma tarefa fácil e que a paz não existe e que precisamos tão somente de uma única forma de amparo espiritual?

Um reforço dali e de acolá, jamais será desperdício.

Regina Carvalho - Pedras Grandes, SC

Ilustração-IA

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