quinta-feira, 4 de junho de 2026

MELODIA & Emoção

Diversas foram as vezes em que citei o fato de estar ouvindo o Noturno de Chopin enquanto escrevia minhas crônicas diárias, mesclando seus acordes com as minhas emoções. É exatamente o que faço neste momento, em meio ao frio e à solidão existente em cada ser humano, ainda mais quando se atinge uma longa vivência, enriquecida com os mais diversos e complexos entendimentos íntimos relativos à própria existência.


De acordo com a minha natureza conciliadora, fui absorvendo a vida. Mesmo quando esperneava, tentando mudar ou pelo menos entender o abandono em que me via e sentia em muitas ocasiões, também fui descortinando a mais pura e indelével realidade em relação à minha própria e intransferível solidão.

E foi através desta peça musical curta e expressiva para piano solo, que particularmente adoro, que fui compreendendo e cada vez mais evocando a melancolia nela existente. Através do seu caráter lírico, percebi que essa melancolia, afinal, não é só minha, mas inerente à pessoa humana.

Como tudo que me interessa, fui pesquisar. Descobri que o estilo foi criado ainda no século XVIII pelo compositor irlandês John Field, mas foi Frédéric Chopin quem o aperfeiçoou e eternizou em 21 noturnos ao longo de sua vida. 

Cada qual se caracteriza pelas nostalgias poéticas, desnudando a intimidade da alma do compositor, tal qual faço com a minha: ora dramática e agitada, ora tranquila e suave, onde a solidão sempre esteve presente e provocante.

Fui descobrindo lentamente o quanto gostava de conviver com a minha solidão. Logo percebi que poderia fazer dela uma forte aliada e, imediatamente, passei a sorver os seus encantos, tirando proveito dos hiatos entre um espaço e outro da sempre necessária ilusão de não estar só.

E aí, o milagre se fez presente como um imunizador absolutamente natural, permitindo que, em minha solidão, eu recebesse a visita de outros tão solitários quanto. Eles, delicadamente, com suas cores, aromas, texturas e sabores, completam o vazio, tirando-me da inércia para ir ao encontro de um tudo mais que foi, é e que desejo que venha a ser. Isso me compensa integralmente da realidade crua de estar por todo o tempo como única em meio a tantos outros.

O dia ainda não clareou, mas com certeza há luz em mim.

Regina Carvalho 04/06/2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração-IA

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