Nunca, em tempo algum, descerei do salto de me sentir uma saborosa ameixa em meio a este pomar deslumbrante da vida.
De repente, pensando muito tempo depois, compreendi que, quando as piabinhas do riacho de Guapimirim desviavam-se dos seus rotineiros caminhos só para beliscarem minhas perninhas, buscavam algo em especial. E era eu que lá estava.
Portanto, se valia a pena para elas mudarem os rumos de suas circunstâncias, por que seria eu a permanecer estática?
Em alguns momentos de minha vida, esta minha forma de ser incomodou profundamente. Afinal, dar a volta por cima das situações que geralmente derrubavam a maioria atraía para mim reações nada agradáveis. Mas fazer o quê, se o belo e o especial surtem em mim um espetáculo do qual jamais pude abrir mão?Desde o “abaixa a crina, menina”, repetidas vezes dito por minha mãe que temia que eu tropeçasse por não olhar para baixo, enxergando em mim a postura de uma égua puro-sangue, coisa de mãe babona, até aquele velho e querido amigo que disse: “Seu olhar é bem alto”. Isso ocorreu quando juntos procurávamos uma nova casa para mim e, apesar de ele só me mostrar as mais simples e comuns, minha atenção só se fixava nas mais amplas e ajardinadas, tal qual as minhas perspectivas. Estas, soberanas que ele desconhecia, tão envolto em seus preconceitos.
Pois é...E aí, apesar de me considerar uma pessoa simples e altamente adaptável às situações adversas, reconheço que existem hábitos em mim que se repetem como uma atração fatal em relação à elegância e ao bom gosto.
A qualidade e o especial podem ser encontrados ou desconsiderados nas mais disfarçadas aparências, mas eu, perdigueira, sempre os encontro e com eles me delicio.
Penso, diante deste magnífico quadro que se descortina diante dos meus olhos através da porta de vidro enquanto escrevo, que a vida, sempre generosa, me ofereceu o melhor de si. Por que haveria eu de preferir fixar meu olhar, mente e admiração no comum ou no lixo que nós, humanos insensatos, produzimos, mesmo que colorido do amarelo do luxo falso dos tolos?
Meu salto nunca foi alto. É que, mesmo usando sandália rasteira, ainda encontro asas para voar e aí, pelo caminho, vou degustando o especial que insiste em me acompanhar.
Na realidade, tudo se resume a uma questão de escolha e na capacidade avaliativa em relação ao justo a qualquer ser vivo, já que sempre está ao alcance de quem, independentemente das condições em que se encontre, não deixa de apreciar o belo e nele se espelhar.
Por um instante, olho para minhas mãos e lembro-me do quanto seguraram firme os arreios para eu subir nas caronas especiais que, até o momento, insistem em colorir a minha vida com as cores autenticamente benditas do amor.
Dedico este texto aos meus filhos, nora e genro, belezas raras com que a vida me presenteou. E, com certeza, brevemente ao Marcelinho que, assim como eu, será a cereja do bolo de nossas vidas.
Abusada que eu sou, hein!!!
Regina Carvalho — 02/06/2026 — Pedras Grandes/SC
Ilustração-IA

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