quinta-feira, 11 de junho de 2026

EQUILIBRANDO...

Pois é, desde ontem venho pensando no quanto precisei conter a Regininha impaciente diante de uma jovem atendente. Com um sorriso falso de final de dia de trabalho, em vez de ser delicadamente instrutiva diante da minha visível ignorância médica, ela optou por ficar repetindo, como um papagaio e vez por outra no diminutivo, o discurso decorado de balcão.

Deus, pensei: dai-me tolerância...Afinal, é preciso tê-la 24 horas por dia e isso é exaustivo. Ainda mais para alguém como eu, que me formei através de bases sólidas, onde o respeito era o princípio básico de qualquer movimento humano, inclusive comigo mesma. Antecipávamos a moral e até mesmo o que os outros vão pensar, uma hipocrisia que, na época, era determinante nos ambientes sociais de qualquer natureza.


Pois é, acontece que lá em casa havia uma saudável divisão interpretativa. Enquanto minha mãe era fiel às aparências, meu pai, cruz credo, era o exemplo vivo do foda-se. Assim, juntos, conseguiram imprimir na criação dos filhos uma originalidade equilibrada. 

Só Deus para explicar, já que a máxima era: nem tanto ao céu, nem tanto à terra e aí, cá estou ainda hoje pensando no quanto precisei equilibrar-me na balança, mesmo a contragosto de minha Anna Paula, molde, cuspida e escarrada do avô no seu mais liberal comportamento e aquela atendente, incapaz de sair do lugar-comum que olhava para mim e pensava: "Porra, esta velha é burra ou está testando a minha paciência?"

.Bem... No final da peleja, saí sem fazer o exame e ainda consegui que minha filha não soltasse os cachorros na atendente, o que, de certa forma, foi uma vitória. Rapaz, o negócio anda feio...Todavia, gostamos de pensar que é coisa do aqui e agora, mas não é verdade. 

Afinal, o ser humano sempre, antes de tudo e cada qual a seu modo, copia os demais animais, desprezando ou usando descaradamente o seu potencial de raciocínio. Esta minha premissa é fácil de constatar se, por algum tempo, cada um de vocês que me lê for capaz de dispensar a cada dia alguns minutos apenas para observar uma ou duas pessoas.

Às vezes, a cópia fica tão inserida na pessoa que, depois de um tempo, ela passa a se parecer com o bichinho, tanto no físico como no jeito de ser. Tigres e lobos se misturam com ratos e cascavéis nas searas do cotidiano. Inclusive nós, os mais observadores, que aprendemos com os coelhos e lebres, ou como os ursos e águias que pressentem de longe suas presas ou um iminente predador. 

E até mesmo aqueles que se camuflam nas próprias plumagens ou recursos naturais de defesa, como certas aves e crustáceos.

Segundo alguns dos meus mais caros amigos, falar palavrão é proibido para mim. Mas, por mais que eu possua uma lista considerável de palavras apropriadas a uma senhora educada, às vezes só mesmo um palavrão alivia a alma. Principalmente aquele terrível, onde se manda alguém, com a melhor boca do mundo, tomar em seu orifício anal. O efeito calmante é imediato. Atua mais rapidamente na corrente sanguínea que qualquer Anafranil, Lexotan ou qualquer sossega-leão iludidor das emoções do momento que o mercado farmacológico oferece.

Nossa, Regininha, hoje você está demais no abuso das palavras... Pensando nisso, lembro aos meus mais educados leitores que pior que falar um palavrão é deixar impassivelmente que ladrões de casaca, carros de luxo e tudo mais, comprados com o dinheiro público, assolem o seu bairro, cidade e país. 

Falsas autoridades que nada mais são que esfomeadas ratazanas políticas, transfiguradas em coelhinhos da Páscoa, fadas madrinhas e até mesmo Papai Noel, devorando o meu e o seu fígado sem dó nem piedade, enquanto fingimos que não sabemos os FPs e poucas-biscas que são.

Regina Carvalho -11.6.2026  Pedras Grandes, SC

Ilustração-IA

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