Nesse amanhecer, pensei em escrever sobre a minha forma de escrever, onde a protagonista sempre sou eu. Isso pode parecer uma extrema vaidade, mas aí dei uma pausa e comecei a visualizar algumas postagens. Imediatamente encontrei uma que foi determinante. Afinal, através dela pude compreender que, se apenas me conheço, é natural que (tentando manter a lógica e a ética) eu permaneça focada em mim em relação a tudo mais. Assim, ao me lerem, pode existir um encontro de semelhanças, já que, de uma forma ou de outra, somos todos muito parecidos quando os assuntos são sentimentos e emoções.
Sinceramente, eu não arriscaria escrever adentrando no âmago de quem quer que fosse de outra forma que não fosse descrevendo o apenas aparente. E, ainda assim, com a certeza de que estaria a anos-luz de revelar a pessoa que estivesse embutida na estética apresentada.
Como não nasci com o talento de inventar histórias (o que confesso me frustra barbaramente), acredito que, para quem tem o dom de escrever, sentir-se capaz de criar ambientações onde as tramas comportem mocinhos e bandidos, levando os leitores ao suspense, aos delírios de alegria e principalmente às lágrimas, faz de qualquer narrativa um sucesso.
É, mas esse talento eu não tenho. Mesmo sendo uma observadora compulsiva, logo eu que, repleta de expectativas, mergulhei a vida inteira neste mar pessoal de buscas.
Encontros e desencontros desenharam quem verdadeiramente sou e, assim, conhecendo-me um pouquinho aqui e acolá, fui moldando esta setentona que ainda, insistentemente, lhes escreve a cada amanhecer. Sigo reafirmando que ainda sou a mesma menininha encantada pela vida, independentemente do que pensavam ou esperavam de mim.
Quando me olho em qualquer espelho, seja de casa ou até mesmo de uma loja qualquer, começando pelas vitrines onde me vejo refletida, ostento um sorriso. O que enxergo é uma pessoa linda que conseguiu se aceitar, inclusive o tempo que, inexorável, varreu os mares serenos de minha juventude como um tufão.
Não pensem que foi fácil, já que não faltaram cobranças e punições, mas também deixei de pensar que seria impossível. Finalmente compreendi que o foco deveria ser eu, a despeito das expectativas alheias ou de situações, por mais bem-intencionadas que fossem. Ou seja: empreguei em tudo que precisava vivenciar as armas e o combustível de que dispunha. Portanto, mesmo machucada, esfolada e, em algumas ocasiões, quase morta, fui capaz de ressurgir das cinzas, ainda abrigando os amores de minha vida. Isso me levava a constatar que: salvaram-se todos...
Como não me reabastecer de orgulho e gratidão? Afinal, mesmo perdendo algumas batalhas, eu me sentia vencedora, já que tudo o que de verdade importava permanecia ao meu lado.
Entendi ainda muito cedo que só perdia o que não me pertencia. Assim, a seletividade ditou o ritmo e a potência de minhas forças em cada batalha, permitindo aos Césares dos meus caminhos tudo quanto os regalava, porque o que me pertencia estava sempre bem guardado.
Simples assim...
Regina Carvalho (10/06/2026 – Pedras Grandes, SC)
Ilustração- IA

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