terça-feira, 9 de junho de 2026

PIEGAS...

Dormi e acordei com a palavra Piegas em minha mente, aliás, para ser mais exata, sentindo-me exatamente assim, piegas em um tempo onde ser descolada é o mínimo que se espera, ainda mais de uma pessoa que atua diariamente nas redes sociais.

Pois é, fazer o quê, se conto nos dedos quem me curte e comenta. No entanto, cá pra nós, não é bem assim, afinal, o número de seguidores só aumenta. Aí, fico pensando que de repente o que escrevo tem adeptos fiéis, mas colar suas imagens à minha faria de cada um deles também um piegas. Pode ser!


Estou pensando seriamente em criar uma página no YouTube, de preferência monetizada, afinal, não só de bunda, bocas e de celebridades o mercado consumidor precisa. E eu, bem, eu talvez com o plim plim pingando na minha conta aliviaria essa frustração que confesso me persegue, ao ponto de até me questionar o quanto posso parecer piegas com meus exemplos retrógrados de lógica amorosa., vida plena e liberdade.

O que fazer com os meus textos melosos se os mesmos refletem exatamente o que sinto? Na realidade, gostaria de saber contar histórias, mas não sei...

Gostaria de poder mostrar o quanto a vida me marcou, abrindo feridas incuráveis, mas todas fecharam e, ainda, regeneraram a pele, rosando-a de brilho. Mas isso não vende emoções e as pessoas precisam delas para darem um sentido às suas existências, ora se comparando, ora invejando, sem jamais precisarem pensar a respeito. 

E eu, com meus exemplos de vida, forço-as a saírem de seus confortos e isso é inadmissível em uma era do aqui e agora, mesmo que seja sem nexo, lógica ou coisa que o valha. Como dizem os baianos: Rapaz!!!

Falar de amor, quando este desceu da mente para os órgãos genitais, é com certeza piegas. Tentar resgatar a importância de se sentir existindo é no mínimo uma perda de tempo, já que viver tem perdido feio para o sempre presente imediatismo que há muito contaminou a quase todos, levando as pessoas a colocarem preço em si mesmas, descartando qualquer inerência sentimental, já que o "eu quero aqui e agora" se satisfaz até mesmo com as ilusões midiáticas.

E aí, qualquer aditivo, por mais esdrúxulo que possa parecer, vale uma curtida e o somatório delas faz jorrar dinheiro no bolso do incauto, fazendo até que se esqueça da penúria pessoal, afinal, nada é mais brilhante e promissor que acompanhar o brilho dos carros de luxo, das mansões, das joias e das viagens daquele mequetrefe que se fez importante, justo vendendo um peixe que de repente até mesmo aquele dantes invisível do sistema hoje é capaz e aí, se ele pode, eu também posso.

Percebem aonde quero chegar com esta narrativa? Afinal, há de existir sempre alguém que se identificará e se sentirá na mesma situação. O que me leva a pensar que é mais fácil mostrar-se tal como se é do que programar-se, revirando o baú de si mesmo, a não ser, é claro, que a mensagem seja inicialmente gratuita e em seguida cobrada em forma de suaves parcelas, onde o instantâneo milagre chamado felicidade seja o chamariz.

E quem não quer ser feliz, de preferência sem mover uma palha de suas arraigadas posturas e sem tirar o bumbum da cadeira e os olhos do celular?

Pois é, deduzo que sou mesmo uma piegas sem eira nem beira e sem dinheiro no banco, tal qual o genial Belchior quando escreveu em 1976 seu estrondoso sucesso, já reconhecendo que era apenas um rapaz latino-americano e que a vida não era simplesmente maravilhosa.

E aí, quem de verdade consegue cantar uma só de suas longas músicas se a caneta azul e a boquinha da garrafa fazem as vezes do ideal popular?

Regina Carvalho - 9.6.2026 - Pedras Grandes - SC

Ilustração-IA

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