Pois é…
Fui dormir depois de assistir à novela Três Marias, única e exclusivamente para distrair a minha cabecinha exaurida de tanto escrever, onde fuço as memórias, livros e arquivos em busca de elementos corroborativos ao livro que me foi proposto escrever sobre uma das figuras mais impactantes do início do século XX do espiritualismo brasileiro: Hilda Roxo.
E aí, deparo-me com a figura icónica da personagem Arminda, a viúva gostosona, de caráter dúbio, aliás, bem brasileiro, exemplificando, de forma extremamente estereotipada, um grande número de mulheres e homens que acreditam estar acima do bem e do mal.
Imediatamente, associamos as suas condutas a um alguém qualquer que conhecemos, e eu não fugiria à regra, porque, afinal, foram muitas as Armindas e os Ferretes que cruzaram os meus caminhos.
Algumas, por terem gostos olfativos duvidosos relacionados à sexualidade, como foi possível observar no capítulo desta segunda-feira, subestimam o perigo e acabam mal quando, descobertas pelo macho sofredor ou provedor. Outras, no entanto, continuam por aí circulando com seus carrões de luxo e bem sabemos quais são, subindo ladeiras, adentrando becos, desfalecendo em gozos nos braços de um tentador cavalariço nos estábulos da vida das suas cidades, aproveitando estéticas que, a cada ano, mais precisam de reparos, a fim de manterem o tolo convencimento de que são amadas pelas suas belezas.
Se bem que a maioria usa o poder que ostenta e o dinheiro que nem sempre ganha por si mesma como reforços de conquista, como foi mostrado na última novelinha da Globo, em que, numa única pincelada, o dramaturgo coloriu, romantizando, a paixão entre a velhusca branca e recém rica e o cavalariço jovem e pobre. Assim, para economizarem outro núcleo de artistas, acrescentaram neles o preto e o branco num único affair clandestino, mostrando o quanto é possível triunfar o “amor” entre os diferentes, de cabo a rabo.
Rapaz…
Atualmente, com os costumes atualizados, tudo é mostrado nas mídias como real e possível. Todavia, eu e você sabemos que não é bem assim, já que nunca houve, na história brasileira, tantos conflitos de interesses de todos os níveis, aumentando, a cada dia, os índices de agressões e mortes que nem os Códigos Civil e Criminal, constantemente atualizados aos novos costumes, são capazes de inibir ou mesmo amenizar.
Como adoro uma analogia, comparo essas criaturas aos “joios” que marginalizam o trigo, fingindo-se ser um deles, ou à “era” destrutiva que, apesar de bela, destrói lentamente aquilo onde se escora para crescer pungente e viçosa.
Olhem bem para a estética física e postural da Arminda, que camufla com luxo e frieza a sua vida emocionalmente destroçada e totalmente alheia a qualquer traço de ética e decência, assim como a do Ferrete desprovido que qualquer empatia, e digam a si mesmos quem eles lhes fazem lembrar.
Eu poderia dar algumas dicas, mas sinceramente prefiro fazer-te pensar um pouquinho, já que não serão necessários grandes esforços: bastará prestar atenção nas absurdas ostentações que estão diante dos teus olhos, fazendo-te até mesmo, invejar.
Regina Carvalho
20.1.2026 — Pedras Grandes, SC

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