sábado, 10 de janeiro de 2026

 PAIXÃO DOS SENTIDOS

Ainda me lembro e já faz uns duzentos anos de estar sentadinha na varanda da casa de campo, em Guapimirim, RJ, observando a chuva fina, persistente, que diante dos meus olhos se oferecia. Eu seguia os pingos que se revezavam entre si, caíam e escorriam lentamente por uma das folhas de um enorme cipó-imbé, enroscado numa árvore frondosa a poucos metros de mim.

O aroma daquele lugar mágico era um misto de terra molhada e relva fresca, acompanhado por um turbilhão de outros cheiros que, como temperos adicionais, vinham da vasta vegetação ao redor. Ora pareciam frutíferos, ora apenas um conjunto rico e perfumado de tudo o que os meus olhinhos de criança conseguiam enxergar  e que me fascinava profundamente.

Mal podia eu imaginar que, ali, naquele instante simples e silencioso, nascia a minha paixão pela natureza: esse precioso verde que se alterna com tantas outras cores, num emaranhado organizado de vida, convivência e equilíbrio.

Seria este o verdadeiro encanto da vida? Poder conviver harmoniosamente com tudo o que nos cerca, respeitando formas e tempos, estilos e cores absolutamente singulares?


Duzentos anos depois, cá estou eu, sentadinha noutra varanda, contemplando novamente a chuva, agora tão fina que os olhos já não conseguem acompanhar as gotas. Ainda assim, permanecem os sons, permanecem os aromas. Diferentes, é verdade, pela ausência das frutas e das quedas d’água, mas ainda fascinantes para esta senhora que, há muito, compreendeu a incapacidade humana de sorver da natureza o sentido maior da sua própria existência.

Que pena…

Não sabem o que estão perdendo.

Regina Carvalho

10.01.2026 — Pedras Grandes, SC

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