quinta-feira, 19 de março de 2026

ENFARADA...

Não sei você, independentemente da idade que tiver, se vez ou outra não se vê tomado por uma sensação de enfado que, de tão forte, limita por algumas horas todo e qualquer entusiasmo. É como se nada fosse capaz de lhe motivar; uma espécie de cansaço generalizado.

Estou me sentindo assim desde ontem. É uma sensação antiga e conhecida que detesto, mas que é maior que minha vontade. Lembro-me de senti-la desde sempre, com a vantagem de ser rápida a sua retirada.


O mundo me parece grande demais e, ao mesmo tempo, muito limitado para a minha percepção. Por não o compreender, sinto-o me confundindo mais que esclarecendo, por mais que a ciência e a tecnologia tenham evoluído. Aliás, para ser mais exata: olho para os fatos que ocorrem e que a mídia mostra e me enfado com as repetições. Presto atenção, como sempre, nas pessoas e as vejo cada vez mais como cópias. Busco frenética uma originalidade e não a encontro, tal qual já via há dez, vinte, cinquenta anos.

De ontem para hoje, só mesmo os gatos e cachorros me consolam um pouquinho; estão sempre apresentando alguma novidade. Talvez me escolheram por eu representar uma novidade na área, cansados que estão dos modos de seus tutores. Vai saber... Cruz credo...

Nem mesmo a escrita me anima. Ontem sequer escrevi, convencendo-me de que seria perda de tempo e que nada que eu expressasse surtiria emoção em quem lesse. Penso que, na realidade, o que me leva a esse enfado é a inabalável capacidade do ser humano em buscar uma felicidade continuada, que elimine as dificuldades, as fantasias e os antídotos anestesiantes e consoladores tudo para justificar suas existências, mantendo a duras penas seu lugar no mundo sem, verdadeiramente, jamais o encontrar.

E assim, dá-lhe adaptações incapazes de aplacar a maldita solidão que, como uma broca rotativa, vai raspando as paredes de qualquer resistência, fragilizando-as e permitindo que brechas se abram. Por elas passa o vazio de um "tudo mais" que não faz o menor sentido, já que o reconhecimento do ideal parece não existir. Sabe aquela sensação de ter ou desejar tudo, e absolutamente nada fazer sentido?

Agora mesmo, vivenciamos o "Mês da Mulher", quando deveríamos estar exaltando, para não ser esquecido, o "Dia da Vida". Esta, sim, precisa ser conscientizada a cada instante, já que, por temê-la, disfarçamos as emoções desagradáveis, motivados pela mentira descarada de que viver tem que ser um pout-pourri de orgasmos continuados.

De repente, por alguns momentos ou dias, nada queremos fazer, com ninguém queremos interagir. Tudo parece chato, aborrecido. E que isso não cause transtornos ou incomode quem sente, pois não faltará quem diga: "Mas você tem tudo, mais que a maioria, por que tanta insatisfação?".

Porra, sei lá... Afinal, se soubesse, provavelmente o evitaria.

Também de repente, sinto-me enfadada de ser a Regininha certinha, boazinha e repleta de emoções simpáticas, devoradora dos sapos alheios, das cretinices dos hipócritas e das sandices dos sacanas que forjam o que jamais foram para controlar os incautos à sua volta.

O que sei é que me sinto enfadada. Mas, como voltei a escrever, provavelmente ainda hoje estarei de volta ao aconchego da mesmice.

Regina Carvalho-19.3.2026 Pedras Grandes SC

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