Não sei você, independentemente da idade que tiver, se vez ou outra não se vê tomado por uma sensação de enfado que, de tão forte, limita por algumas horas todo e qualquer entusiasmo. É como se nada fosse capaz de lhe motivar; uma espécie de cansaço generalizado.
Estou me sentindo assim desde ontem. É uma sensação antiga e conhecida que detesto, mas que é maior que minha vontade. Lembro-me de senti-la desde sempre, com a vantagem de ser rápida a sua retirada.
O mundo me parece grande demais e, ao mesmo tempo, muito limitado para a minha percepção. Por não o compreender, sinto-o me confundindo mais que esclarecendo, por mais que a ciência e a tecnologia tenham evoluído. Aliás, para ser mais exata: olho para os fatos que ocorrem e que a mídia mostra e me enfado com as repetições. Presto atenção, como sempre, nas pessoas e as vejo cada vez mais como cópias. Busco frenética uma originalidade e não a encontro, tal qual já via há dez, vinte, cinquenta anos.
De ontem para hoje, só mesmo os gatos e cachorros me consolam um pouquinho; estão sempre apresentando alguma novidade. Talvez me escolheram por eu representar uma novidade na área, cansados que estão dos modos de seus tutores. Vai saber... Cruz credo...
Nem mesmo a escrita me anima. Ontem sequer escrevi, convencendo-me de que seria perda de tempo e que nada que eu expressasse surtiria emoção em quem lesse. Penso que, na realidade, o que me leva a esse enfado é a inabalável capacidade do ser humano em buscar uma felicidade continuada, que elimine as dificuldades, as fantasias e os antídotos anestesiantes e consoladores tudo para justificar suas existências, mantendo a duras penas seu lugar no mundo sem, verdadeiramente, jamais o encontrar.
E assim, dá-lhe adaptações incapazes de aplacar a maldita solidão que, como uma broca rotativa, vai raspando as paredes de qualquer resistência, fragilizando-as e permitindo que brechas se abram. Por elas passa o vazio de um "tudo mais" que não faz o menor sentido, já que o reconhecimento do ideal parece não existir. Sabe aquela sensação de ter ou desejar tudo, e absolutamente nada fazer sentido?
Agora mesmo, vivenciamos o "Mês da Mulher", quando deveríamos estar exaltando, para não ser esquecido, o "Dia da Vida". Esta, sim, precisa ser conscientizada a cada instante, já que, por temê-la, disfarçamos as emoções desagradáveis, motivados pela mentira descarada de que viver tem que ser um pout-pourri de orgasmos continuados.
De repente, por alguns momentos ou dias, nada queremos fazer, com ninguém queremos interagir. Tudo parece chato, aborrecido. E que isso não cause transtornos ou incomode quem sente, pois não faltará quem diga: "Mas você tem tudo, mais que a maioria, por que tanta insatisfação?".
Porra, sei lá... Afinal, se soubesse, provavelmente o evitaria.
Também de repente, sinto-me enfadada de ser a Regininha certinha, boazinha e repleta de emoções simpáticas, devoradora dos sapos alheios, das cretinices dos hipócritas e das sandices dos sacanas que forjam o que jamais foram para controlar os incautos à sua volta.
O que sei é que me sinto enfadada. Mas, como voltei a escrever, provavelmente ainda hoje estarei de volta ao aconchego da mesmice.
Regina Carvalho-19.3.2026 Pedras Grandes SC

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