sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

SAPINHO NO BANHEIRO

Sou de uma geração em que a menina era diferenciada quanto à educação doméstica, sempre tratada como se fosse um serzinho frágil e, portanto, impedida de agir desta ou daquela forma, por serem consideradas características próprias dos homens.

Esse era um cercado demasiado estreito para a Regininha que a mãe qualificava de teimosa, mas que, na realidade, era apenas persistente em tudo aquilo em que acreditava também lhe caber.

Todavia, a situação era complexa, ainda mais por ser a rapa do tacho de uma pequena estrutura familiar, onde todas as atenções estavam voltadas para aquela garotinha criativa, repleta de energia e de escolhas nem sempre compatíveis com o perfil esperado de uma menina oriunda de uma família de valores comportamentais tradicionais e atávicos, herdados da imigração portuguesa.


Por outro lado, se a mente da garotinha pouco se importava com o repetitivo refrão, “o que os outros vão pensar,” também não o contestava nem o afrontava ostensivamente; simplesmente jamais abria mão de pensar diferente.

Em dado momento, fez da própria mente a sua liberdade mais preciosa e, com ela, passou a voar pelos céus, pegando carona em pássaros e borboletas, tornando-se imune às traiçoeiras contaminações ambientais de hábitos e costumes impostos.

Sabia que precisava ser uma mocinha comportada aos olhos do mundo, mas, em contrapartida, a sua mente, invisível aos demais,  traçava rumos fantásticos, todos fundamentados na mais pura originalidade do seu ser. Um lugar onde a hipocrisia, a mentira e a traição não tinham acesso.

Ainda hoje, sorri complacente ao ouvir alguém dizer que a sua vida é monótona, parada e sem graça, apenas porque evita isto ou aquilo e opta, muitas vezes, pela aparente solidão. O que essa pessoa não sabe é o quanto de especial e magnífico é possível vivenciar quando se abdica da mesmice comportamental induzida, em busca de conquistar ou manter a frustrante posse,  seja ela qual for.

Então, recordo as palavras de Jesus, registradas em Mateus 16:26:

“Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?”

E que emoção é acordar e, antes mesmo de escovar os dentes, surpreender-se com uma linda mensagem de um precioso amigo inestimável e de um sapinho pululando no banheiro, sem transformá-lo em inimigo, permitindo-lhe permanecer tranquilo, sentindo-se em casa e seguro de que jamais lhe faria mal algum. Afinal, o maior e mais poderoso inimigo reside, antes de tudo, dentro de nós.

Regina Carvalho

16/01/2026 – Pedras Grandes, SC

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