sábado, 3 de janeiro de 2026

APARAS PESSOAIS

Neste amanhecer, despertei pensando no quanto tenho escrito ao longo da minha vida, principalmente sobre mim e sobre tudo o que posso, com os meus sentidos, ver e sentir, nem sempre tocar.

Penso, então: por quê?

Seria a consciência do meu pouco ou quase nenhum talento para estimular a imaginação e criar contos e histórias? Ou seria essa mesma consciência a alertar-me sobre o meu próprio manancial e sobre a necessidade, sempre urgente, embora amorosa, de escarafunchar os meus próprios labirintos?


Talvez essa fixação íntima exista para que eu possa conhecer-me melhor e, pacientemente, aceitar aquilo que me é original, ao mesmo tempo em que vou extirpando as aparas adquiridas ao longo da caminhada — aquelas que fizeram chorar a minha consciência.

Quando, em certo dia, olhei para o horizonte e a minha visão periférica abrangeu os preciosos entornos, compreendi que eu era um ínfimo fragmento integrativo de um todo completo. Tornou-se, então, impossível não considerar a importância da minha interação.

Eu e nada na vida seríamos um acaso. Tudo deveria ter uma razão de ser. Descobri-me curiosa e, dali em diante, nada mais me passou despercebido.

Pensei… Como descobrir quem sou e para que existo?

Mal sabia, naquela ocasião, que precisaria de uma vida inteira apenas para arranhar a casca dura que os hábitos e costumes, ao longo do tempo, encobririam.

Descobri-me um poço aparentemente sem fundo de desejos complexos, criadores de emoções, em sua maioria não originais — emoções que precisariam ser eliminadas ou, ao menos, reconhecidas e contidas para que, quem sabe um dia, eu pudesse conhecer-me um tiquinho que fosse.

Portanto, ocupada em circular em mim mesma, como ousar crer ser possível descrever, com um mínimo de veracidade, um outro alguém?

Descartei essa ideia de imediato e direcionei os meus escritos a mim, onde posso, sem constrangimentos, deixar aflorar as mais autênticas realidades e, quem sabe, aparar aqui e acolá, fazendo da minha vida um bendito ministério existencial de aperfeiçoamento, liberdade e consciência.

Regina Carvalho

03.01.2026 — Jaguaruna/SC

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