Pensar junto, então, é como acertar um bilhete de lotaria.
Talvez essa tenha sido a minha maior motivação para sustentar um casamento tão duradouro. Depois de encontrar alguém com aquele calibre mental, como simplesmente seguir adiante?
Vamos ser honestos: não há nada mais enfadonho do que uma relação em que, passado o ardor inicial, divide-se tudo, a casa, as contas, os compromissos, menos o pensamento. Quando a troca intelectual se ausenta, as emoções não desaparecem de imediato; elas se desgastam lentamente, quase em silêncio. E o silêncio prolongado é muito mais corrosivo do que qualquer conflito.
Poucos casais compreendem que amar não é apenas partilhar a vida, mas somar percepções. Descobrir o mundo em dupla, provocar o raciocínio do outro, despertar curiosidade. Esse tipo de intimidade cria um magnetismo raro, onde o desejo não depende apenas do corpo, mas da mente que o habita.
É nesse ponto que se percebe: estar junto não é acessório, é fundamento. Todo o resto, inclusive os filhos, deveria surgir como consequência natural de uma estrutura viva, e não como muletas emocionais usadas para sustentar o que já perdeu sentido.
São três e meia da manhã. Perdi o sono. Para não alimentar a síndrome da cama vazia, essa ausência que amplifica memórias de afeto e ativa a ansiedade, faço o que sempre fiz: escrevo. Na quietude das montanhas, deixo que pensamentos ganhem forma, aqueles que a maioria evita expressar por não parecerem socialmente aceitáveis.
Vivemos uma era em que parecer feliz tornou-se obrigação moral. É preciso exibir sucesso, estabilidade, plenitude, nem que isso custe comprimidos diários, terapias sem fim ou fugas químicas cuidadosamente disfarçadas. Afinal, admitir o vazio não rende aplausos.
Mas há um desperdício ainda maior do que viver sob pressão: dividir a cama e a mesa sem conteúdo, sem troca real, sem o sal de uma conversa que instigue, provoque e aqueça. A convivência sem presença é uma forma sofisticada de solidão.
E talvez seja por isso que pensar junto continue a ser um luxo. Não porque seja raro encontrar pessoas, mas porque é cada vez mais difícil encontrar quem se disponha a estar inteiro.
Regina Carvalho
18.01.2026 — Pedras Grandes, SC

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