segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ME DEIXEM ESCREVER

Afinal, desde que me entendo por gente, absorvia e sentia tudo à minha volta de forma muito intensa. Essa intensidade traduzia-se em muitas energias circulantes, que faziam com que eu fosse, digamos, uma menininha esquisita, fora dos padrões comportamentais da época, já que observava e questionava mais do que as demais crianças.

Hoje, imaginem, quase uma vida inteira depois, consigo finalmente mensurar o que significou para os meus pais, especialmente para minha mãe, sempre presente, educar-me, estabelecendo regras e limites para uma criança que, mesmo com os pés no chão, vivia a voar. Pelo menos, foi assim que eles e os demais à minha volta me enxergavam.


Também eu, durante quase toda a minha vida, não consegui, pela fala, explicar este meu jeito de ser, para que compreendessem que o meu comportamento não era birra, teimosia, problema psíquico ou qualquer outra avaliação precipitada, mas apenas a minha forma de ver e sentir a vida e tudo o que nela existia, tal qual se apresentava: original e absolutamente normal, inclusive a morte, fosse do que fosse.

Hoje, pensando sobre isso, posso compreender o quanto eu confundia as suas mentes, ainda mais para os padrões da época.

Pois é, os padrões mudaram, mas eu, apesar de algumas derrapagens aqui e acolá ao longo de um percurso muitas vezes tumultuado da minha vivência, permaneci fiel ao meu amor pelo belo, pelo justo e pelo nobre, não permitindo ser corrompida pelo feio, pelo grosseiro e pelo hipócrita.

Condutas absolutamente corriqueiras nos convívios humanos, em qualquer lugar deste mundo que se afirma ser de Deus, mas que, na realidade, utilizam-no apenas como bandeira para um abre-alas de tudo o que há de ruim ou sofrível, induzido sem dó nem piedade pelos sistemas mercantilizados, também disfarçados sob o rótulo de convívio educado, civilizado e o escambau.

Qual nada!

Logo bem cedinho, identifiquei as falsidades, as mentiras e os costumeiros engodos que se escondiam entre salamaleques de qualquer relacionamento social.

E, então, tudo o que me restou foi escrever, pois identifiquei a solidão de pensar de forma contrária aos costumes. E olhem que jamais levantei bandeiras nas avenidas da vida, tentando aparecer, intitulando-me isto ou aquilo.

Imagino se o tivesse feito… provavelmente estaria hoje a ostentar os frutos envernizados deste sistema que se doura por fora, também enlameia ou, no mínimo, sufoca por dentro.

Bendita escrita, que escoou as minhas visões, amparando e fortalecendo as minhas impressões, sem jamais fazer de mim dona de qualquer verdade.

Bendita escrita que me terapeutizou, esta palavra existe ou acabo de a criar?  Sei lá. Só sei que me fez compreender que, para me sustentar emocionalmente e não chocar em demasia os outros com a transformação que acontecia em mim, eu precisaria passar pelo processo de olhar para dentro, assumindo riscos e responsabilidades por mim mesma.

Comprometi-me, assim, a ser fiel aos meus propósitos: não fugir da minha permanente visão avaliativa, sem afrontar; não me moldar, por motivos adaptativos, a esta ou àquela situação; muito menos tornar-me uma espécie de rebelde maga de um novo mundo a ser vivido. E, acima de tudo, comprometi-me a não pirar em meio à solidão que percebi ser a minha mais fiel parceira.

Portanto, deixem-me escrever, pois o meu alimento, o meu ar e os meus ideais só cabem nas pautas que escrevo, sem tamanho e sem limites de margens que os contenham.

Concluo que enquanto o mundo se maquiava de virtudes, eu aprendi a reconhecer o cheiro da hipocrisia.

Regina Carvalho – 25.01.2026

Pedras Grandes – SC

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