sábado, 24 de janeiro de 2026

GENTE CHATA OU DOENTE?

Há tempos observo, com crescente inquietação, a confusão deliberada entre o sofrimento psíquico legítimo e a simples incapacidade de conviver. Nem todo comportamento abusivo é doença. Nem toda grosseria é transtorno. Em muitos casos, trata-se apenas da ausência de limites, convenientemente travestida de diagnóstico.

Vivemos uma época em que qualquer desconforto relacional é imediatamente convertido em patologia. Exige-se medicação, tolerância irrestrita e silêncio dos que convivem com o problema. Questionar virou falta de empatia. Impor limites, crueldade. E assim surge a pergunta incômoda: como sobreviveram as gerações anteriores?

Seriam emocionalmente mais fortes?


Ou apenas educadas para compreender que nem tudo que se sente deve ser despejado sobre o outro?

A sensação é de que se tornou mais fácil recorrer ao comprimido que silencia do que ao esforço interno que educa. Frear impulsos passou a ser visto como repressão, enquanto externalizar tudo, inclusive agressividade e prepotência, ganhou o status de direitos e autenticidade. Esqueceu-se que autocontrole não é violência contra si, mas condição básica de vida em sociedade.

O problema começa cedo. A tarefa de educar emocionalmente foi terceirizada. Pais exaustos, culpados ou ausentes transferiram a formação de limites para quem não tem essa missão: babás, avós, escolas. O resultado não é mistério. Crianças crescem sem frustração, adultos surgem incapazes de tolerar o contraditório.

Quando o convívio se torna insustentável, resta o consultório. Ali, muitas vezes, o comportamento já cristalizado encontra um rótulo que o absolve. Não por má-fé dos profissionais, cuja importância é inegável, mas porque a sociedade passou a tratar falhas educativas como questões clínicas.

Cria-se, assim, uma legião de “pacientes” que não aprenderam a conviver, apenas a exigir. Pessoas que se percebem vítimas permanentes e acreditam que o mundo lhes deve aceitação incondicional, mesmo quando suas atitudes são invasivas, abusivas ou francamente violentas.

E os outros?

Os que aprenderam a conter-se, a refletir, a atravessar as próprias sombras sem terceirizar a responsabilidade, esses seguem invisíveis. Sustentam relações, ambientes e famílias à custa de cansaço e silêncio. São solicitados a compreender, mas raramente compreendidos.

O mundo parece ter se transformado numa indústria de transtornos e síndromes, produzindo diagnósticos em série, alimentando mercados e discursos, enquanto abandona um princípio elementar: limite não adoece, protege.

Limite não produz seres perfeitos, mas pessoas minimamente habitáveis. Sem ele, criamos indivíduos armados de laudos, convencidos de que qualquer resistência ao seu comportamento é preconceito, intolerância ou ignorância emocional.

Desculpe a franqueza. Viver muito, pensar muito e sobreviver aos próprios fantasmas cobra um preço: a perda da paciência com discursos que confundem acolhimento com permissividade e cuidado com rendição.

Regina Carvalho

24/01/2026 — Pedras Grandes, SC

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