Acordei pensando na minha filha Anna Paula que, na adolescência, reclamava do fato de eu adivinhar o que ela estava pensando e, por isso, me chamava de “bruxa”.
Hoje, analisando a constante irritação dela em relação à minha franqueza em confrontá-la diante de uma mentirinha, absolutamente normal nesta fase em que tudo está se adequando a uma nova realidade física e emocional, penso que na realidade eu, de um jeito ou de outro, já que trabalhava muito, além de escrever compulsivamente, apenas a observava. Aquele olho no olho que infelizmente anda em desuso, acompanhado da franqueza que se deve ter para com aqueles a quem amamos e que se estende aos amigos ou, simplesmente, a alguém com quem precisamos tratar costumeiramente, como, por exemplo, a caixa da panificadora, o porteiro do prédio etc.
Pois é... Banalizamos até mesmo a nossa atenção e, aí, tudo se complica, pois tudo se transforma em surpresa e esta em desatinos, inconformismos ou, o que é pior, colocada na prateleira de que a vida é assim mesmo e que Deus dará um jeito.
Os brasileiros adoram o ditado que diz: “Enquanto você vem com a farinha, meu pirão está pronto”.
Duvido muito...Partindo desta premissa, chego à conclusão de que estamos todos incluídos na prateleira do “deixa a vida me levar” ou, o que é ainda mais grave: “Pra Deus nada é impossível”, em que, impulsionados pela esperança da intercessão divina, cruzamos os braços e dizemos: "Deus me é fiel", amém e quando tudo dá errado: "Esta foi a vontade de Deus".
Não que devamos desconsiderar a vontade divina, no entanto, até "Ele" espera que façamos algo a respeito. Afinal, nem sempre este algo irá resolver ou alterar um fato concreto, mas pelo menos diminui a distância entre nós e o outro, lembrando-o de que, apesar de ter livre-arbítrio para fazer o que lhe aprouver, nós estamos cientes, justo por considerá-lo, criando assim um laço afetivo que pode demorar, mas que um dia adorna a ambos, criando limites e em muitos casos, abreviando os excessos.
Penso que a indiferença é o mais destruidor dos sentimentos e emoções, e que a acomodação é o sinal mais evidente do abandono, mesmo que este venha acompanhado de presentes e concordâncias sem base que as sustente.
Não se trata de interferir, apenas de tirar do outro a culpa por achar que nos está enganando. Sim, afinal, de que vale sobrecarregar o outro, já que ele é o que é e fará o que bem desejar? Mas...
Portanto, este é o primeiro passo para se estabelecer vínculos que o tempo, senhor dos destinos, mais cedo ou mais tarde revelará. Afinal, fingir que nada está vendo é talvez o responsável por tudo de absolutamente desastroso que, infelizmente, estamos todos vivenciando, começando dentro de nossos lares.
Regina Carvalho, 22.5.2026, Pedras Grandes, SC.
Ilustração IA

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