segunda-feira, 4 de maio de 2026

GRATIDÃO

Hoje seria mais um domingo desta minha longa e gostosa vida, mas é claro que, em se tratando de Dona Regina, nada seria comum. Isto é simplesmente fantástico, já que desenvolvi a capacidade de comparar minha trajetória à dos demais, não por inveja, mas pelo reconhecimento de que, mesmo nos meus momentos mais difíceis, sempre estive acima da média em relação aos martírios que constatava ao redor. Isso me leva a ser grata por não ter experimentado sacrifícios e dores extremas. Seria eu, então, uma pessoa privilegiada neste mundo repleto de contradições? Com o passar do tempo e o amadurecimento, fui ficando mais confusa. Ninguém era capaz de me dar uma resposta convincente, e eu não admitia que, existindo um Deus, ele pudesse ser seletivo. Ao mesmo tempo, reconhecia que, na maior parte do tempo, eu não havia me comprometido com nada realmente relevante, pois sempre me julguei alheia ao que via à minha volta como sendo o caminho da segurança pessoal.


Restou-me, então, ser grata: pelo amor que brotava em mim sem qualquer manual oportunista, pela segurança que me cercava sem artifícios extras, pela beleza que meus olhos eram capazes de enxergar, mesmo quando as aparências nubladas tentavam desviar minha atenção. 

Os caminhos que percorri, por opção ou não, mesmo esburacados e repletos de cascalhos pontiagudos, jamais feriram meus pés a ponto de me fazer desistir, garantindo-me a autonomia de escolher onde ficar e com quem estar.

Nestas décadas que se sucederam, pude assistir ao mundo, e especialmente ao meu país, descer a ladeira nos quesitos harmonia e segurança. No entanto, cá estou, gozando de um bem-estar impossível para tantos outros.

Penso agora em você que me lê. Se o faz, é porque está abrigado, alimentado e lúcido para buscar e usufruir o que quer que seja. Portanto, eu e você, de alguma forma, estamos seguros e livres, e isso é maravilhoso. Talvez você também já tenha cometido a leviandade de não ser grato por tudo o que tem de bom, lembrando-se apenas de reclamar pelo que ainda não conseguiu. Afinal, a grama do vizinho parece sempre tão verde, enquanto esquecemos dos milhões de jardins ressequidos que os noticiários mostram incansavelmente nas ruas, no trânsito e até dentro do que deveria ser um lar.

Gratidão é, simplesmente, reconhecer as benesses com as quais se convive. Se precisar agradecer a Deus, aos santos ou aos orixás, que o faça agindo com respeito a tudo o que lhe cerca, seja humano ou não.

Regina Carvalho – 03.05.2026 – Pedras Grandes, SC

Ilustração-IA

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