Não sei você, mas às vezes, e no meu caso com muita frequência, lembro de fatos e pessoas que fizeram parte da minha caminhada. Inclusive algumas cujos nomes não recordo, mas cujas presenças e atenções jamais foram esquecidas.
Neste amanhecer, acordei com as imagens de pessoas que, mesmo passadas tantas décadas, ficaram congeladas tal qual as deixei pela última vez, esperando que estejam tão vivas e saudáveis quanto eu.
Viver muito traz sempre a possibilidade de termos deixado pelo caminho pessoas lindas e preciosas. Portanto, lembrar delas e do convívio desfrutado é bom demais; creio que seja uma forma de eternizá-las em gratidão pela imensa parcela de momentos inesquecíveis que serviram de insumo ao meu crescimento pessoal em todos os níveis. Afinal, cada qual ensinou-me, com sua forma de ser, algo precioso que o tempo não apaga.
Neste instante em que escrevo sobre elas, destaca-se o primeiro amigo de que posso me lembrar. Na época em que o conheci, ele tinha apenas cinco anos, assim como eu. Paulinho Braga e eu imediatamente nos conectamos. Por ser meu vizinho e sermos ambos "rapa do tacho", com irmãos bem mais velhos, criamos um elo de carinho que se estendeu até os nossos 13 anos. Foi quando, então, a força dos hormônios dispersou a ingenuidade entre os amigos praticamente irmãos. É um sentimento que compreendo hoje, mas não naquela época, quando, decepcionada, percebi que para ele eu representava um pouco a mais. Confesso que o choque foi enorme e, a partir dali, algo se quebrou na intimidade que tínhamos. Ele não era mais o parceiro com o qual eu não precisava pensar em nada além de ser a moleca de sempre.
Todavia, Paulinho descortinou a mocinha que despertava em mim e, dali em diante, passei a olhar os garotos com olhos de cobiça e a mim mesma com os da vaidade. O incrível é que não deixei de amá-lo, mesmo sem jamais tê-lo visto novamente após meu casamento aos dezoito anos. Tive apenas meu pai como elo, já que não voltei a morar no Rio, mas meu pai continuou sendo seu vizinho.Não raramente me pergunto como ele está, se finalmente deixou de ser um solteirão convicto ou mesmo se está vivo. Pensando agora, acho que éramos duas crianças solitárias e tímidas, mas absolutamente felizes, que doaram uma à outra os encantos de nossas mentes criativas.Lembro que ele tinha um cachorro enorme chamado Duque e uma castanheira, muito comum nas calçadas e quintais daquela época. Eu simplesmente a adorava. Um de seus galhos, com folhas largas e firmes, invadia o meu quintal e a janela do meu quarto, obrigando-me a empurrá-lo todas as vezes que precisava fechá-la. Ainda posso me lembrar dos muitos planos que desenhei na mente enquanto, deitada em minha cama, olhava para o galho de onde alcei incríveis voos juvenis. Paulinho Braga, filho da professora Luiza, irmão de Antero e Zé Fernando (amigo de uma vida do meu irmão) e de duas moças cujos nomes não me lembro.
Saudades de uma época em que a calçada era o "play" da criançada, os brinquedos eram compartilhados e as árvores eram as acolhedoras de nossos abraços suados, ariscos e amorosos. Saudades de tocar as campainhas das casas dos vizinhos e sair correndo, deixando o suor da deliciosa molecagem banhar uma ingenuidade que marcou uma era em que ser apenas criança bastava.
Saudades de uma Ipanema que me viu nascer, crescer e me tornar mulher.
Regina Carvalho – 07/05/2026 – Pedras Grandes, SC
Ilustração IA Ver menos

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